O Primeiro Passo é Uma Ilha

O primeiro passo é uma ilha isolada no grande mar das minhas conturbadas emoções; sou eu o insulado, sou eu a ilha, sou eu o mar.

Vivendo nesse isolamento, tenho como companheiros permanentes no mar que me envolve: o desespero, a apatia, a angústia, o medo, o ressentimento, a amargura, o desgosto de existir e a solidão. São alguns dos incontáveis monstros marinhos que habitam este mar deprimente. Enumerar todos os pensamentos negativos e sentimentos devastadores que me assolam exigiria mais letras do que o alfabeto possui para descrever tamanha dor.

Como dói a solidão ao fim de mais um dia em que sinto não estar vivendo — apenas naufragando paulatinamente —, apesar da respiração e dos batimentos cardíacos. Sinto-me como um jovem guerreiro emocional falido, lutando contra as próprias emoções em desalinho, brigando como um louco contra pensamentos que me invadem a cada instante.

Vejo-me tentando proteger-me de uma nuvem negra de marimbondos emocionais, cujos ferrões picam-me dolorosamente. Ou como o gorila King Kong, exilado no alto do Empire State Building, tentando inutilmente proteger sua vida e sua amada dos aviões incansáveis — perdoe-me a parte que me toca, irmão gorila. Sinto-me também como um Bonaparte vencido na tórrida ilha de Santa Helena; conheço a solidão do seu desterro, irmão Napoleão.

O pior é a certeza de que esse isolamento é eterno, de que jamais sairei. E, no entanto — paradoxalmente —, continuo andando em círculos por essa prisão, na esperança de que não seja um pedaço de terra cercado de água, mas que haja uma saída. O inferno se agrava quando, achando ter encontrado a rota de fuga, descubro uma realidade ainda mais dura: estou preso em um labirinto de infinitas saídas que levam a lugar nenhum, cercado por monstros marinhos emocionais.

Essa luta e a ilusão perpétua de salvação levaram-me a um cansaço mental absoluto, a um desânimo sem fim, a um poço profundo, frio e escuro dentro de mim — última parada de minhas emoções falidas. Parece o fim: eu, perdido, fatigado, vazio e em coma emocional.

Mas, um dia, surge alguém em um pequeno barco levando uma mensagem: o barco dos 12 Passos. Alguém que conhecia o mar, os monstros, a ilha, o poço e o insulano; alguém que trazia uma carta náutica e uma certa mensagem — a Quinta Tradição —, feito um Colombo descobrindo novos mundos.

Com o amor de quem conhece a dor, essa pessoa localizou-me cirurgicamente no labirinto, acendeu uma vela, tocou-me e disse: "Você está sofrendo, venha comigo a uma sala de Neuróticos Anônimos".

Reconheci-a imediatamente. Era minha irmã mais velha, a quem amo desde a infância. Jurava estar sozinho no universo, e lá estava ela. Olhei para ela e, doze segundos antes da rendição total, respondi do fundo da negação: — Deve haver um engano, não sou doente emocional... São só alguns probleminhas de curta duração.

— Irmão, se você quiser ir a uma Sala de 12 Passos, irei com você e participaremos juntos — disse ela, estendendo a mão sem julgamento.

Segurei firme, como a boia lançada a um náufrago prestes a afundar.

Não estou mais na ilha. Aprendo, dia a dia, a compreender meus monstros. Agora remo no barquinho da vida, um dia de cada vez, na esperança de encontrar outro náufrago no poço e levar-lhe a mensagem de esperança que um dia alcançou meu coração.

O passo da gratidão é o décimo segundo, mas o registro fica: obrigado, irmã de ventre e de dor. Suas remadas de amor no barco dos 12 Passos salvaram minha vida, tirando-me da ilha e devolvendo-me ao continente dos homens, a apenas doze segundos do naufrágio final.

Comentários

  1. No início da leitura, meu pensamento voou até Dom Quixote e sua eterna luta contra os moinhos de vento!
    São tão vívidas sua descrição, que nos transporta para a ilha. Onde como expectadores inicialmente e após alguns instantes, nos reconhecemos como náufragos também. Dia a dia, lutando para sobreviver e vencer nossas limitações.
    Que maravilha, quando surge tão suavemente o socorro e nos enche de esperanças.
    Tem saída sim, e o nome dela é Poder Superior!

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  2. Meu amigo, cada vez mais estou apaixonada pelos seus textos. É uma grande viagem. Parabéns amigo, escritor de almas. Que meu confortam, me ajudam. E me faz seguir uma longa viagem para dentro de medo. Obrigada. Só por hoje eu sou a pessoa mais importante da minha vida fiquei

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