O Homem que Alumiava o Céu

Naquele princípio de noite, no outono de Botafogo, o Moço das Letras, sentado no banco da varanda de sua casa, observava com certa nostalgia as poucas estrelas que ele conseguia enxergar no céu.

— Nas poluídas cidades dos homens, com suas luzes artificiais, fica mesmo muito difícil encontrar as estrelas — falou a Criança ali do seu lado no banco. 


— Você por aqui Criança? Estava tão absorto nas estrelas que não consegui mesmo perceber a sua presença.

— Avistou Marte Moço das Letras?

— Não quero nada com Marte por agora Criança; faz muito frio lá.

— Você gosta de contemplar as estrelas Moço das Letras?

— Gosto muito.

— E o que você sente quando as contempla?

— Sinto uma certa saudade Criança...

— Eu conheço, Moço das Letras, um certo Homem que alumia o céu todas as noites.

— É uma história Criança?

— Sim... é uma história!

— Poderia contá-la para mim?

Então, sob o céu de Botafogo, sentados no banco, sob o manto da noite e as estrelas, o Moço das Letras ouviu a história contada pela sua Criança Interior...

Era uma vez em um local muito distante, um Homem que todos os dias, no princípio da noite, acendia a luz exterior de sua residência. Dentro do confortável lar já externamente iluminado, um certo menino olhava lá para fora, para o mundo exterior, através da vidraça da janela. Via nas proximidades muitos pontos iluminados, e além, muito além, uma cerrada escuridão. Olhou então para o seu amável pai, que depois de iluminar a casa, estava agora ao seu lado; o menino expressou então aquilo que sentia em seu coração.

— Papai, que escuridão é aquela lá longe, além das luzes próximas de nós?

— Aquela é a terra dos homens meu filho.

— Terra dos homens?

— Sim... os homens, seus irmãos. 

— E por que é tão escuro lá papai?

— Porque aqueles homens ainda não conquistaram sua própria iluminação meu filho; não descobriram ainda a sua própria luz.

— Papai, se lá é a terra dos homens, que lugar é este onde estamos agora?

— Aqui é a terra dos Homens meu filho.

— Não entendi papai.

— Todas as vezes que um homem se ilumina em sua terra, sua luz surge e brilha intensamente. Neste momento meu filho, este homem transforma-se em um Homem, e então, encontra o caminho de volta para a sua verdadeira casa, que é exatamente o lugar onde estamos, passando então a viver no mundo dos Homens iluminados.

— Então papai, somente os Homens iluminados vivem aqui?

Seu pai nada falou, mas o menino percebeu que a luz no seu olhar respondia à sua pergunta.

— Mas papai, por que os homens não se iluminam logo e voltam rapidamente para suas casas.

— Porque meu filho, constantemente eles se perdem naquela escuridão toda, tão preocupados com questões exteriores, e desta forma acabam mesmo esquecendo de buscar a luz que está bem dentro de cada um deles.

— Papai, de onde eles estão, apesar da intensa escuridão, eles conseguem avistar este lugar?

— Sim meu filho, é algo como observar um céu estrelado em uma noite. 

— E isto não é o suficiente para a volta papai?

— Olhar as estrelas ajuda meu filho, mas não é o suficiente; faz-se necessário que cada homem transforme-se em sua própria estrela, o que é uma tarefa muito árdua. 

O menino ficou ali perto da janela, observando com uma certa curiosidade aquela terra tão escura lá ao longe.

— Papai, às vezes sinto um desejo de sair de casa e conhecer o mundo; devo mesmo confessar que, desejo um dia mergulhar naquela escuridão, a fim de conhecer a terra dos homens.

— Isto é absolutamente natural meu filho, seu tempo de partir está chegando; mais cedo ou mais tarde todos os filhos partem daqui para lá.

— Papai, por que aos poucos vai brotando em mim este desejo de partir?

— Seu pai é um Homem meu filho. O desejo do mergulho no mundo dos homens é um caminho pelo qual todos precisam passar; os homens são como sementes que precisam morrer um dia, a fim de que a planta maravilhosa que existe dentro de cada um deles — o Homem — possa finalmente germinar em direção à luz. 

— Papai, estando lá, o que eu preciso fazer para encontrar o caminho de volta, ou ainda, encontrar este Homem em mim?

— Uma vez no meio de todas aqueles homens, você precisará conhecer e viver a sua própria individualidade; isto não é fácil meu filho, mutas vezes os humanos confundem-se entre si, gerando entre eles uma enorme confusão, de forma que, com muita frequência, ninguém mais sabe quem é quem, e desta forma eles acabam perdendo por um tempo suas próprias identidades. 

— Como assim papai, não entendi?

— Imagine que cada humano lá seja uma casa, uma casa interior. Na confusão em que eles vivem, muitas vezes alguns invadem as casas e os quintais dos outros. Esta invasão de domicílio provoca muitas desavenças entre eles, e enquanto estes limites individuais, estes quintais humanos não forem bem delimitados e respeitados, a discórdia entre eles vai continuar ocorrendo. Neste constante estado de confusão eles se perdem, gerando sempre mais escuridão.

— Mas papai, por que os humanos, tendo cada um sua própria casa interior, ainda resolvem invadir as casas dos outros:

— Na verdade, mesmo tendo suas próprias e interiores casas, eles se sentem desabrigados e sem teto, e desta forma vivem invadindo as casas dos demais. 

— E nesta ilusão do desabrigo papai, como então não invadir as casas alheias?

— Faz-se necessário que cada um descubra o seu próprio teto meu filho. O mundo dos homens é muito grande, com muitas falsas portas exteriores que conduzem às casas alheias e a infinitos labirintos de dor, sofrimento e ilusão; são muitas as enganosas portas que conduzem para os quintais dos demais. A única maneira de voltar parra cá menino, é através da abertura da porta correta e única, a porta do coração, a porta que conduz para o próprio lar iluminado de cada um.

Passou pelo olhar do menino uma ponta de preocupação, logo notada pelo seu amoroso pai.

— Não tenha receio deste mergulho na terra dos homens meu filho. Lá você encontrará muitos outros homens buscando o caminho de volta, deixando mesmo, através de suas experiências de vida, muitos exemplos de luz. 

O coração do menino aquietou-se, e ele continuou a viver ainda por mais algum tempo na casa de seu pai, até que, finalmente, chegou o dia da sua partida para a terra dos homens.

Naquele dia, bem cedo seu pai o pegou pela mão e caminhou ao seu lado, atravessando aquele local tão bonito que mais parecia um enorme jardim. Caminharam muito, até finalmente chegarem em um local, onde se avistava uma placa com a inscrição: "Terra dos homens a 500 metros". 

Naquele momento, carinhosamente, o pai pegou o filho no colo e passou a carregá-lo no final daquele trajeto — Meu filho, está chegando a hora de nossa despedida.

Grossas lágrimas caíram dos olhos do menino que amava tanto o seu pai e aquele local onde viviam. Este, por muito sensível, chorava também. Abraçou ainda mais aquele ser tão amado, incutindo-lhe palavras de confiança e amor na nova e necessária etapa de sua vida.

— Menino, mesmo que você não consiga perceber, estarei sempre do seu lado, ajudando-o a encontrar a porta correta, a porta que, uma vez transposta, fará de você um Homem.

— Mas papai, e se eu sentir muito a sua falta por lá, o que eu faço?

— Olhe todas as noites para o céu meu filho, todas as noites. Seu pai estará sempre por por perto acendendo a luz, a fim de que você, mesmo que mergulhado na mais profunda escuridão, possa mais rapidamente encontrar o caminho de volta para a sua casa.

O menino começou então a adormecer no colo de seu amado pai, e suas últimas palavras foram:

— Eu te amo muito papai.

— Vá agora, viva e confie! Estarei sempre por perto, mesmo que você não consiga notar-me na grande escuridão, aguardando o Homem que virá. Eu também te amo muito menino. 

Foram estas as derradeiras palavras que o menino ouviu de seu pai Moço das Letras, antes de finalmente adormecer, para enfim acordar na terra dos homens. 

                                                                                           ***

O Moço das Letras olhou para o lado no banco, à procura da Criança. Ela não estava mais lá. Tornou então a olhar para o alto, para as estrelas, infinitas estrelas... Sabia ele, naquela grande escuridão da terra dos homens, que uma delas estaria sempre acesa esperando pela sua volta, tal qual a luz da casa de sua mãe, na época em que ele regressava da escola noturna. Benditas aquelas luzes na escuridão, luzes de amor... amor de Pai, amor de mãe. 

Naquela noite, a luz da varanda da casa do Moço das Letras permaneceu acesa por toda a noite, alumiando um pouquinho a grande noite escura da terra dos homens.

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