A Viagem Ao Planeta Vermelho
O carnaval já havia terminado; a vida ia aos poucos voltando ao normal, e o ano novo de fato iria começar. O Moço das Letras estava cansado, contente porém, dentro de poucos dias estaria finalmente de férias; na sua cabeça tudo planejado, crônicas agora somente no mês de abril.
Chegou do seu trabalho e tomou o seu habitual café com pão e manteiga; notou algo em cima de sua mesa: Um objeto escuro que estava lá há muito, muito tempo, como que esquecido, já mesmo empoeirado. Pegou-o; havia nele uma inscrição. No exato momento em que faria a leitura, surgiu ao seu lado, como em um passe de mágica, a sua Criança Interior, toda vestida de astronauta, dos pés à cabeça. Riu muito o Moço das Letras com aquela aparição, riu muito...
— O que é isso Criança, você está fantasiada de astronauta? Tarde demais, o carnaval já passou, desfiles e blocos agora somente para o próximo ano.
A Criança tirou serenamente o capacete da cabeça, e olhou atentamente para o seu amigo, abrindo um largo sorriso.
— Não gosto de café; você tem algum suco, uma limonada, ou mesmo uma laranjada? Estou com sede!
O Moço das Letras providenciou um copo de guaraná natural, com uma pedra de gelo, e ofereceu para a Criança, que começou a beber com imenso prazer.
— Hoje vou contar para você a história de um homem que viajou para Marte, o planeta vermelho.
— Ah Criança... hoje não, estou cansado e vou tirar férias, deixemos para abril.
— Vou contando bem devagarinho, você não precisa escrever agora, apenas memorize e registre depois. Certamente você não esqueceu que escrevemos meses atrás sobre o regresso de um homem do planeta vermelho; chegou finalmente a hora de falarmos sobre a sua partida para lá.
— Uma pergunta ainda Criança... em que reino afinal de contas ocorreu este fato? Precisarei relatar isso para os leitores.
— No Reino do Concreto Moço das Letras, o reino onde você vive, o reino onde vive o seu grande amigo, o Agricultor Urbano, no reino dos carros, dos prédios, das naves, do rádio, da televisão, da internet...
Como ele não precisaria escrever nada naquele momento, ficou mesmo na copa ouvindo o relato sobre aquela tão insólita viagem, e a Criança ali, com seus trajes espaciais, bebendo o seu guaraná começou a sua narrativa...
Era uma vez, mais ou menos há cinquenta anos, um homem que alimentava desde a sua infância um grande sonho: Ser o primeiro ser humano a pisar em solo lunar. No ano de 1969 aquele seu sonho foi por água abaixo, pois finalmente, depois de muito planejamento, os norte americanos chegaram lá. Nosso protagonista Moço das Letras, era bastante obstinado, e então ousou sonhar novamente, e sonhou muito mais alto e muito mais além: "Serei o primeiro ser humano a pisar em Marte."
Ao longo dos próximos anos foi então construindo sua nave espacial, ou melhor, sua nave mental, pois foi mesmo a partir de sua poderosa mente que ele conseguiu, de fato, um dia chegar a Marte. Neste período preparatório para a grande viagem, de vez em quando ele fazia alguns testes, alguns voos curtos em sua aeronave, de forma a realizar os ajustes necessários para a grande empreitada. Podia estar em uma sala de aula, ou em sua casa, ou ainda na rua, ou em outro lugar qualquer, e então, apertava o botão de partida, e em poucos instantes não estava mais onde deveria estar — ali somente o seu corpo —, sua mente já estava longe, bem longe, lá no espaço.
— Desculpe interromper sua narrativa Criança, mas afinal de contas, por que queria este homem ir para tão longe, ir para Marte — falou o Moço das Letras.
— Aquele homem Moço, não tinha a menor vontade de estar aqui, tudo era muito vazio e enfadonho, tudo tão desagradável; ele queria a evasão, queria ir embora, queria estar longe, bem longe, preferencialmente sozinho; os humanos o incomodavam um bocado. Como não conseguiria fazer aquilo pelas vias de fato, faria então pelas vias mentais, ausentando-se através de sua profunda imaginação, para enfim, na solidão do espaço, conseguir a sua tão almejada felicidade.
— Por que então ele não foi para uma ilha deserta? Muito mais fácil, e afinal de contas, existem inúmeras ilhas isoladas mundo afora.
— Em uma ilha Moço das Letras, por mais remota que fosse, ele poderia facilmente ser descoberto; seu desejo de evasão do mundo era tão grande, que ele resolveu mesmo ir para o espaço distante.
— Por que então ele não foi para uma ilha deserta? Muito mais fácil, e afinal de contas, existem inúmeras ilhas isoladas mundo afora.
— Em uma ilha Moço das Letras, por mais remota que fosse, ele poderia facilmente ser descoberto; seu desejo de evasão do mundo era tão grande, que ele resolveu mesmo ir para o espaço distante.
Finalmente, alguns anos depois, já estando mesmo casado e com filhos, sua nave mental estava finalmente pronta e testada, muito bem testada. Anunciou a todos a partida. Sua mãe ficou muito preocupada.
— Meu filho, Marte é tão longe, pode ser perigosa a viagem, melhor você não ir.
— Não se preocupe mamãe, farei uma viagem muito rápida; viajarei através da velocidade do pensamento, e apesar dos milhões de quilômetros de distância, estarei lá em minutos, e em pouco tempo estarei de volta; um passeio mamãe, um passeio especial, um passeio espacial.
Se pai olhou para ele mansamente com aquele olhar dos homens experientes, que sem dizer muito falam tanto.
— Antes da viagem meu filho, verifique o nível do óleo, a água do radiador, a calibragem dos pneus, e sobretudo a correia dentada.
— Papai... é uma nave mental, tudo controlado pela minha poderosa mente; cada detalhe foi verificado infinitas vezes, não se preocupe com estas questões mecânicas ultrapassadas.
Sua mulher tentou de todas as formas dissuadi-lo daquela ideia doida.
— Meu bem, vai me deixar aqui sozinha com as crianças? Estou muito preocupada, algo me diz que isso pode dar errado, nenhum humano jamais esteve em Marte antes.
— Mulher amada, mulher preocupada, relaxe meu bem, relaxe... Será tudo muito breve, na próxima segunda-feira estarei de volta, a tempo de almoçarmos juntos e levarmos as crianças na escola. Tudo ficará bem meu amor, tudo ficará bem... preciso muito ir.
Então, na madrugada daquela sexta-feira, lá pelas quatro horas da manhã, aquele homem beijou a mulher, beijou os filhos que ainda estavam dormindo, foi ao seu amado quintal, deu uma olhadela nas suas árvores e bichos, entrou em sua nave, ligou os motores, aguardou alguns instantes, verificou todos os instrumentos, acendeu as luzes externas, e lentamente, lentamente foi partindo para o espaço, partindo para longe, partindo para o seu grande sonho: Marte, o planeta vermelho. Lá do alto, mas ainda não tão distante, olhou ainda uma última vez para trás e viu lágrimas nos olhos de sua amada. Da nave que começava a ganhar velocidade, ainda falou: Não se preocupe meu bem, daqui a pouco estarei de volta, eu te amo, eu te amo...
Lá estava ele finalmente viajando pelo espaço distante; como o tempo é sempre curto Moço das Letras, não narrarei os detalhes técnicos de sua jornada. Pouco menos de uma hora depois sua nave pousava em Marte. Saiu desta e pisou firme no chão deixando lá a sua pegada — um grande passo para a humanidade, pensou ele —, e começou a dar umas voltas por ali. Com o coração acelerado de tanta alegria, de tanta emoção, abaixou-se e pegou uma pequena pedra — a prova material de sua viagem —, e nela, com um lápis escreveu: "Lembrança de minha viagem à Marte".
Por ali Tudo deserto, tudo avermelhado, tudo muito frio... andou mais um pouco e avistou a maior montanha do sistema solar, o monte Olimpo, com mais de vinte quilômetros de altura. Andou mais um pouquinho e a paisagem era sempre a mesma, tudo tão árido, tão desolado, tudo tão enfadonho.
Por ali Tudo deserto, tudo avermelhado, tudo muito frio... andou mais um pouco e avistou a maior montanha do sistema solar, o monte Olimpo, com mais de vinte quilômetros de altura. Andou mais um pouquinho e a paisagem era sempre a mesma, tudo tão árido, tão desolado, tudo tão enfadonho.
Voltou para a sua nave e resolveu explorar outros lugares do planeta; navegou por lá durante algumas horas, e não achou nada, absolutamente nada de interessante. Um pouco cansado de tudo aquilo, resolveu pousar sua nave mais uma vez; fez um lanche e cochilou um pouco, antes de ligar os motores e dar o fora — Marte era um lugar chato e horrível para qualquer ser humano.
Começou estranhamente a sentir saudades da terra, dos homens, do chão, do céu azul; dos rios, dos mares, do pão francês, das pessoas, da feira livre aos domingos e de tudo mais que existia, naquele lugar tão distante para ele agora, aquele minusculo e amado pontinho perdido na imensidão do espaço.
Começou estranhamente a sentir saudades da terra, dos homens, do chão, do céu azul; dos rios, dos mares, do pão francês, das pessoas, da feira livre aos domingos e de tudo mais que existia, naquele lugar tão distante para ele agora, aquele minusculo e amado pontinho perdido na imensidão do espaço.
Dormiu mais de uma hora, e acordou disposto, disposto a ir embora. Regulou o sistema de navegação em direção a sua amada terra — em poucos minutos estaria em casa, chegaria a tempo do jantar —, e ligou o motor de partida. Ouviu um barulho estranho, as luzes do painel estavam acessas, mas o motor não ligou. "Deve ser o frio pensou ele." Desligou o motor e depois de alguns segundos girou novamente a chave de ignição. Novamente o barulho estranho, e o motor não ligou. Pela primeira vez desde os dias de elaboração daquele projeto, seu coração disparou e uma ponta de preocupação nasceu, turvando seus pensamentos; começou a suar frio, muito frio.
Ele havia construído com sua própria mente aquela nave, conhecia cada detalhe dela, cada mínimo detalhe. A solução seria simples: Fecharia os olhos e mentalmente examinaria cada minúcia de sua criação até encontrar a falha, e então, através de suas próprias ferramentas mentais, realizaria ali mesmo o reparo do problema. Seu poderoso cérebro jamais o havia deixado na mão, já estava quase sentindo o cheirinho do jantar na mesa de sua querida casa, já estava quase sentindo o abraço amoroso de sua mulher e filhos.
Como dizia Tolstoi: "O que o homem põe, Deus dispõe"; havia sido tão grande o esforço mental para a construção daquela nave, bem como o planejamento daquela longa viagem — anos —, que a mente daquele astronauta estava no mais profundo estado de esgotamento — assim como um solo exaurido que não produz mais grãos. Ele simplesmente não conseguia encontrar o defeito da nave, pois avariada também estava a sua própria mente, a mãe de sua maravilhosa criação. Sua aventura havia ido longe demais, estava agora perdido, perdido em Marte, sem saber como voltar para a sua casa.
Passado o instante do desespero inicial, de cabeça um pouco mais fria, constatou que seu sistema de rádio estava em perfeita ordem. Nasceu uma esperança em seu coração; quem sabe os americanos pudessem ajudá-lo — eram muito capazes aqueles norte americanos.
Conseguiu uma ligação com Cabo Canaveral, e enviou um sinal de socorro: "Houston, I have a Problem." (1) Passados alguns instantes a base americana respondeu, e o homem explicou onde estava e falou da pane em sua nave mental. Os americanos constataram que os sinais de rádio vinham mesmo de Marte, mas acharam que poderiam ser os russos, e resolveram fazer silêncio total sobre aquilo; seria o fim aqueles soviéticos chegarem ao planeta vermelho antes dele, a Casa Branca não gostaria nem um pouco de ouvir aquela notícia. A única resposta que o astronauta mental ouviu no seu rádio foi: "I'm Sorry." (2)
O Desespero do homem aumentou ainda mais; havia ainda uma outra possibilidade: Pedir ajuda aos soviéticos, os inimigos dos americanos do norte. Conseguiu a comunicação via rádio com a base de lançamentos lá no deserto do Azerbaijão, e como não falava russo, falou em inglês: "Please Azerbaijão, please... I Have a problem. Here the Rocket Man, the astronaut, and i'm lost on mars." (3)
Os soviéticos receberam a mensagem, consultaram o pessoal de Moscou — que logo acharam que deveria ser uma nave norte americana —, e foi deliberado que se fizesse silêncio absoluto em relação aquilo; quem falasse alguma coisa sobre aquele assunto, iria passar umas longas férias sem cobertores na distante e gelada Sibéria.
Horas depois, sem nenhum retorno dos russos, constatou finalmente que estava irremediavelmente perdido. Ele achou que morreria logo, mas sua mente era tão poderosa que adaptou todo o seu metabolismo para viver ali naquelas condições tão adversas. Desta forma, nem o frio, nem a fome, nem a sede, nem a solidão, remorso e angústia, nem nada, nada o abalou fisicamente; ele passou simplesmente a viver de maneira vazia e absolutamente inútil, cheio de lamentações, amargura, saudades e arrependimento, lá no planeta vermelho.
Quando finalmente percebeu que apesar de todas aquelas adversidades não havia morrido, acabou com o tempo criando uma rotina, na vã esperança de retardar a loucura que não tardaria, tentando manter vivo em si uma ligação, mesmo que tênue, com a sua própria dignidade humana. Acordava cedo todos os dias, e por algumas horas descia de sua nave e em seu traje espacial, fazia longas caminhadas; caminhava até a exaustão, para, em seguida, voltar à nave, a sala de estar de sua prisão mental e espacial, e através do sono, tentar fugir de sua dura realidade.
Naquelas caminhadas, observava sempre as duas luas de Marte: Fobos e Deimos, medo e terror respectivamente. Lembrou-se então que na mitologia romana, Fobos e Deimos eram filhos de Marte e Vênus, respectivos deuses da guerra e do amor. Agora, por imaturidade emocional sua, pensava ele ainda, na sua alienação, desespero e prisão mental, estava irremediavelmente perdido no espaço, medroso como Fobos e cheio de pavor como Deimos.
Considerava-se um guerreiro fugitivo dos campos das batalhas emocionais de todos os homens, um anti-herói, deparando-se naquele isolamento com sua própria condição humana, sem mais possibilidades de fuga, tão carente de amor, o avesso mesmo de Marte e Vênus, verdadeiramente Fobos e Deimos.
Quanto tempo vagou aquele homem pela superfície de Marte? Os dias de prisão transformaram-se em semanas, estas em meses, e estes em anos... Na terra, depois de alguns meses de ausência, ninguém mais esperava pelo seu retorno; a dor de seus familiares e amigos foi grande, mas a vida paulatinamente voltou ao normal.
— Ele foi completamente esquecido por todos na terra Criança? — comentou o Moço das Letras, com um profundo ar de tristeza.
— Quase todos Moço, quase todos... A mãe do nosso astronauta mental jamais desistiu dele.
— Como Assim? Ela também recorreu aos técnicos do mundo para ajudar no retorno do filho?
— Não, não foi assim Moço... Na verdade, ela recorreu a outros técnicos... Durante aquele longo período de ausência, todos os dias ela rezava para ele, e nas suas orações pedia a todos os entes sagrados e amados do seu coração — quase uma infinidade —, que iluminassem o caminho de seu menino e o trouxessem de volta lá do espaço distante, ou mesmo de qualquer outro lugar onde ele pudesse estar. Além das preces diárias, nas segundas-feiras ela rezava ainda com mais intensidade, e durante estas orações solitárias nos fundos do seu quintal, sempre acendia uma vela a fim de iluminar o caminho de volta do filho amado, que vagava lá pela escuridão do espaço frio e infinito; então, pouco a pouco, com a energia, a fé e o amor de sua mãe, aquela luz foi ascendendo, ascendendo...
Muito tempo depois, exausto daquela rotina de sua prisão mental, enquanto caminhava, o homem olhou lá longe o pontinho distante, lá longe, inteirinha, a amada terra; era a tarde de um domingo... E ele ali em Marte oprimido, sofrido, deprimido, sem comprimidos, em seu traje espacial comprimido... Em segundos lembrou-se de tudo o que havia abandonado por lá, em segundos sentiu uma funda saudade e um desejo fervoroso de voltar a fim de encontrar-se com sua gente e tudo o que lá existia; em segundos ele finalmente percebeu que não fazia mais o menor sentido fugir dos homens, constatou mesmo que o que mais desejava, e sabia agora dessa impossibilidade, era mesmo fugir de si mesmo, fugir de seus medos, dores e pavores.
Foi tão grande a emoção, tão enorme a sua dor, que ali no solo frio, estéril e vermelho, ali na escuridão do espaço, na escuridão sobretudo de sua alma, ele finalmente caiu e chorou, deixando rolar através dos astros e do espaço suas humanas lágrimas; lágrimas amargas de angústia, medo, dor, saudades, revolta, raiva, solidão... lágrimas há muito tempo represadas em seu sensível coração.
Naquele instante de dor, desespero e sofrimento, com os olhos cheios d'água, olhando para o céu, percebeu uma pequenina luz que vinha em sua direção, formando uma ponte luminosa entre a Terra e Marte. Lembrou se de sua mãe naquele instante, e a voz do seu coração dizia a ele, de forma indubitável, que aquela luz tão mansa, tão suave e tão amorosa, vinha diretamente de seu materno coração. Depois de tanto ascender, por tanta fé, a luz encontrou finalmente no espaço o menino, inundando de serenidade, paz e esperança o seu deserto coração, e, o que também é digno de relato: Curando pelo amor, mesmo através de milhões de quilômetros, sua mente cansada e exaurida.
Depois de muito chorar, quando levantou do solo, o homem era outro; sentia de alguma forma que estava bem, seus pensamentos finalmente voltavam a fluir naturalmente pelo seu cérebro; em instantes reviu todo o projeto de sua nave, e em um único milésimo de segundo descobriu o defeito; de onde estava, saiu rápido como um foguete, vestido em seus trajes espaciais, retornando para a aeronave.
Dentro da nave, olhou imediatamente abaixo da chave de ignição, e lá estava ela, solta — a diminuta correia dentada —, que, em correto funcionamento, permitiria o acionamento do motor de arranque da nave. Lembrou-se então das palavras de seu pai naquela tarde perdida no tempo: "Verifique o nível do óleo, a água do radiador, e sobretudo a correia dentada". Era tanta a sua auto suficiência naqueles dias, que ele positivamente não ouvia mesmo ninguém, nem mesmo o próprio e sábio pai.
Recolocada a correia dentada no seu devido lugar, o astronauta mental ligou a nave; em instantes todo o painel brilhava com aquelas maravilhosas luzes coloridas de controle, e pouco a pouco foi chegando aos seus ouvidos o doce e maravilhoso barulho do motor no mais perfeito estado de funcionamento. Deixou-o então esquentando por alguns minutos — como sempre fazia o seu pai —, em seguida acelerou lentamente, e pouco a pouco foi ganhando velocidade, mais e mais, sempre em direção àquele agora amado pontinho remoto na escuridão, aquela ilha de comunhão dos homens no infinito e ignoto espaço de Deus.
Não havia mais nenhuma necessidade de instrumentos de navegação; seguia simplesmente aquele rastro luminoso de luz, fruto do amor de sua mãe, que como uma ponte espacial, o levaria de volta para aquele amado porto seguro, lá longe no espaço, a sua amada casa naquele vasto universo, a sua adorada Terra, a Terra dos homens, seus irmãos.
Durante o retorno, antes de adormecer sob o brilho intenso das estrelas, ainda pensou: "Saiu da terra um alienado e infantil sonhador, retorna agora um homem responsável por todas as suas ações".
— Terminou Criança? — Perguntou o Moço das Letras.
— Sim, terminei.
— Criança... existe alguma prova material da viagem deste homem a Marte?
— Sim, existem no mínimo duas provas... Uma delas são as pegadas dele no solo vermelho, que os futuros astronautas acabarão descobrindo um dia.
— E a outra?
O Moço das Letras não ouviu a resposta. Ao olhar para o seu lado, não viu a Criança por lá; sobre a mesa apenas um copo vazio de guaraná, e na sua mão um objeto escuro e pesado — uma pedra —, onde podia ser lida a inscrição feita a lápis: "Lembrança de minha viagem à Marte".
Grossas lágrimas desceram pelos seus olhos. "Como é fria, árida, distante, sofrida, desconhecida e solitária a terra do isolamento mental; terra que aprisiona de tal forma seus habitantes, transformando-os, apesar da aparente proximidade física, em verdadeiros astronautas ausentes e distantes, tão distante quanto Marte, o Planeta Vermelho".
(1): "Houston, eu tenho um problema"
(2): "Eu sinto muito"
(3): "Por favor Azerbaijão, por favor... Eu tenho um problema. Aqui é o homem do foguete, o astronauta, e eu estou perdido em Marte."
Passado o instante do desespero inicial, de cabeça um pouco mais fria, constatou que seu sistema de rádio estava em perfeita ordem. Nasceu uma esperança em seu coração; quem sabe os americanos pudessem ajudá-lo — eram muito capazes aqueles norte americanos.
Conseguiu uma ligação com Cabo Canaveral, e enviou um sinal de socorro: "Houston, I have a Problem." (1) Passados alguns instantes a base americana respondeu, e o homem explicou onde estava e falou da pane em sua nave mental. Os americanos constataram que os sinais de rádio vinham mesmo de Marte, mas acharam que poderiam ser os russos, e resolveram fazer silêncio total sobre aquilo; seria o fim aqueles soviéticos chegarem ao planeta vermelho antes dele, a Casa Branca não gostaria nem um pouco de ouvir aquela notícia. A única resposta que o astronauta mental ouviu no seu rádio foi: "I'm Sorry." (2)
O Desespero do homem aumentou ainda mais; havia ainda uma outra possibilidade: Pedir ajuda aos soviéticos, os inimigos dos americanos do norte. Conseguiu a comunicação via rádio com a base de lançamentos lá no deserto do Azerbaijão, e como não falava russo, falou em inglês: "Please Azerbaijão, please... I Have a problem. Here the Rocket Man, the astronaut, and i'm lost on mars." (3)
Os soviéticos receberam a mensagem, consultaram o pessoal de Moscou — que logo acharam que deveria ser uma nave norte americana —, e foi deliberado que se fizesse silêncio absoluto em relação aquilo; quem falasse alguma coisa sobre aquele assunto, iria passar umas longas férias sem cobertores na distante e gelada Sibéria.
Horas depois, sem nenhum retorno dos russos, constatou finalmente que estava irremediavelmente perdido. Ele achou que morreria logo, mas sua mente era tão poderosa que adaptou todo o seu metabolismo para viver ali naquelas condições tão adversas. Desta forma, nem o frio, nem a fome, nem a sede, nem a solidão, remorso e angústia, nem nada, nada o abalou fisicamente; ele passou simplesmente a viver de maneira vazia e absolutamente inútil, cheio de lamentações, amargura, saudades e arrependimento, lá no planeta vermelho.
Quando finalmente percebeu que apesar de todas aquelas adversidades não havia morrido, acabou com o tempo criando uma rotina, na vã esperança de retardar a loucura que não tardaria, tentando manter vivo em si uma ligação, mesmo que tênue, com a sua própria dignidade humana. Acordava cedo todos os dias, e por algumas horas descia de sua nave e em seu traje espacial, fazia longas caminhadas; caminhava até a exaustão, para, em seguida, voltar à nave, a sala de estar de sua prisão mental e espacial, e através do sono, tentar fugir de sua dura realidade.
Naquelas caminhadas, observava sempre as duas luas de Marte: Fobos e Deimos, medo e terror respectivamente. Lembrou-se então que na mitologia romana, Fobos e Deimos eram filhos de Marte e Vênus, respectivos deuses da guerra e do amor. Agora, por imaturidade emocional sua, pensava ele ainda, na sua alienação, desespero e prisão mental, estava irremediavelmente perdido no espaço, medroso como Fobos e cheio de pavor como Deimos.
Considerava-se um guerreiro fugitivo dos campos das batalhas emocionais de todos os homens, um anti-herói, deparando-se naquele isolamento com sua própria condição humana, sem mais possibilidades de fuga, tão carente de amor, o avesso mesmo de Marte e Vênus, verdadeiramente Fobos e Deimos.
Quanto tempo vagou aquele homem pela superfície de Marte? Os dias de prisão transformaram-se em semanas, estas em meses, e estes em anos... Na terra, depois de alguns meses de ausência, ninguém mais esperava pelo seu retorno; a dor de seus familiares e amigos foi grande, mas a vida paulatinamente voltou ao normal.
— Ele foi completamente esquecido por todos na terra Criança? — comentou o Moço das Letras, com um profundo ar de tristeza.
— Quase todos Moço, quase todos... A mãe do nosso astronauta mental jamais desistiu dele.
— Como Assim? Ela também recorreu aos técnicos do mundo para ajudar no retorno do filho?
— Não, não foi assim Moço... Na verdade, ela recorreu a outros técnicos... Durante aquele longo período de ausência, todos os dias ela rezava para ele, e nas suas orações pedia a todos os entes sagrados e amados do seu coração — quase uma infinidade —, que iluminassem o caminho de seu menino e o trouxessem de volta lá do espaço distante, ou mesmo de qualquer outro lugar onde ele pudesse estar. Além das preces diárias, nas segundas-feiras ela rezava ainda com mais intensidade, e durante estas orações solitárias nos fundos do seu quintal, sempre acendia uma vela a fim de iluminar o caminho de volta do filho amado, que vagava lá pela escuridão do espaço frio e infinito; então, pouco a pouco, com a energia, a fé e o amor de sua mãe, aquela luz foi ascendendo, ascendendo...
Muito tempo depois, exausto daquela rotina de sua prisão mental, enquanto caminhava, o homem olhou lá longe o pontinho distante, lá longe, inteirinha, a amada terra; era a tarde de um domingo... E ele ali em Marte oprimido, sofrido, deprimido, sem comprimidos, em seu traje espacial comprimido... Em segundos lembrou-se de tudo o que havia abandonado por lá, em segundos sentiu uma funda saudade e um desejo fervoroso de voltar a fim de encontrar-se com sua gente e tudo o que lá existia; em segundos ele finalmente percebeu que não fazia mais o menor sentido fugir dos homens, constatou mesmo que o que mais desejava, e sabia agora dessa impossibilidade, era mesmo fugir de si mesmo, fugir de seus medos, dores e pavores.
Foi tão grande a emoção, tão enorme a sua dor, que ali no solo frio, estéril e vermelho, ali na escuridão do espaço, na escuridão sobretudo de sua alma, ele finalmente caiu e chorou, deixando rolar através dos astros e do espaço suas humanas lágrimas; lágrimas amargas de angústia, medo, dor, saudades, revolta, raiva, solidão... lágrimas há muito tempo represadas em seu sensível coração.
Naquele instante de dor, desespero e sofrimento, com os olhos cheios d'água, olhando para o céu, percebeu uma pequenina luz que vinha em sua direção, formando uma ponte luminosa entre a Terra e Marte. Lembrou se de sua mãe naquele instante, e a voz do seu coração dizia a ele, de forma indubitável, que aquela luz tão mansa, tão suave e tão amorosa, vinha diretamente de seu materno coração. Depois de tanto ascender, por tanta fé, a luz encontrou finalmente no espaço o menino, inundando de serenidade, paz e esperança o seu deserto coração, e, o que também é digno de relato: Curando pelo amor, mesmo através de milhões de quilômetros, sua mente cansada e exaurida.
Depois de muito chorar, quando levantou do solo, o homem era outro; sentia de alguma forma que estava bem, seus pensamentos finalmente voltavam a fluir naturalmente pelo seu cérebro; em instantes reviu todo o projeto de sua nave, e em um único milésimo de segundo descobriu o defeito; de onde estava, saiu rápido como um foguete, vestido em seus trajes espaciais, retornando para a aeronave.
Dentro da nave, olhou imediatamente abaixo da chave de ignição, e lá estava ela, solta — a diminuta correia dentada —, que, em correto funcionamento, permitiria o acionamento do motor de arranque da nave. Lembrou-se então das palavras de seu pai naquela tarde perdida no tempo: "Verifique o nível do óleo, a água do radiador, e sobretudo a correia dentada". Era tanta a sua auto suficiência naqueles dias, que ele positivamente não ouvia mesmo ninguém, nem mesmo o próprio e sábio pai.
Recolocada a correia dentada no seu devido lugar, o astronauta mental ligou a nave; em instantes todo o painel brilhava com aquelas maravilhosas luzes coloridas de controle, e pouco a pouco foi chegando aos seus ouvidos o doce e maravilhoso barulho do motor no mais perfeito estado de funcionamento. Deixou-o então esquentando por alguns minutos — como sempre fazia o seu pai —, em seguida acelerou lentamente, e pouco a pouco foi ganhando velocidade, mais e mais, sempre em direção àquele agora amado pontinho remoto na escuridão, aquela ilha de comunhão dos homens no infinito e ignoto espaço de Deus.
Não havia mais nenhuma necessidade de instrumentos de navegação; seguia simplesmente aquele rastro luminoso de luz, fruto do amor de sua mãe, que como uma ponte espacial, o levaria de volta para aquele amado porto seguro, lá longe no espaço, a sua amada casa naquele vasto universo, a sua adorada Terra, a Terra dos homens, seus irmãos.
Durante o retorno, antes de adormecer sob o brilho intenso das estrelas, ainda pensou: "Saiu da terra um alienado e infantil sonhador, retorna agora um homem responsável por todas as suas ações".
— Terminou Criança? — Perguntou o Moço das Letras.
— Sim, terminei.
— Criança... existe alguma prova material da viagem deste homem a Marte?
— Sim, existem no mínimo duas provas... Uma delas são as pegadas dele no solo vermelho, que os futuros astronautas acabarão descobrindo um dia.
— E a outra?
O Moço das Letras não ouviu a resposta. Ao olhar para o seu lado, não viu a Criança por lá; sobre a mesa apenas um copo vazio de guaraná, e na sua mão um objeto escuro e pesado — uma pedra —, onde podia ser lida a inscrição feita a lápis: "Lembrança de minha viagem à Marte".
Grossas lágrimas desceram pelos seus olhos. "Como é fria, árida, distante, sofrida, desconhecida e solitária a terra do isolamento mental; terra que aprisiona de tal forma seus habitantes, transformando-os, apesar da aparente proximidade física, em verdadeiros astronautas ausentes e distantes, tão distante quanto Marte, o Planeta Vermelho".
(1): "Houston, eu tenho um problema"
(2): "Eu sinto muito"
(3): "Por favor Azerbaijão, por favor... Eu tenho um problema. Aqui é o homem do foguete, o astronauta, e eu estou perdido em Marte."
A reação do seu herdeiro,foi o que mais mexeu comigo! Bravo, bravíssimo!
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