Helius, Aquele Que Tudo Revela
Ainda não eram oito horas da manhã, quando o Moço das Letras entrou no escritório lá na capital dos cariocas. Chegando à sua sala, deparou surpreso com sua Criança Interior, que estava ali na mesa ao lado banhada pelo sol, olhando lá para o alto, lá para o céu azul de abril.
— Bom dia Criança, veio trabalhar comigo hoje?
— A luz do sol demora aproximadamente oito minutos para chegar aqui na terra.
— Sim... Hoje falaremos de astronomia?
— Você pode me dar uma dessas suas paçoquinhas que estão em cima de sua mesa Moço?
— Claro Criança, claro... — O Moço das Letras entregou a paçoca para a Criança, que começou a comer com um doce prazer.
— Você tem um tempinho para escrever antes do início do seu expediente?
— Tenho sim, geralmente dou uma olhada no jornal neste horário; podemos conversar então.
— Não quero conversar, quero contar para você uma história sobre Helius, o deus do sol na mitologia grega.
— Sem problemas, sou todo ouvidos.
A Criança Interior então narrou a história para o seu amigo...
Era uma vez, lá no Reino do Concreto, um escritório onde trabalhavam dez pessoas, além do proprietário, de nome Helius, que amava o sol. Durante a construção do escritório comercial de nome Solaris, solicitou Helius ao engenheiro responsável, que desejaria muito ver o sol banhando cada uma das janelas do ambiente — eram dez —, no período do expediente, compreendido entre oito e as dezoito horas.
— Bom dia Criança, veio trabalhar comigo hoje?
— A luz do sol demora aproximadamente oito minutos para chegar aqui na terra.
— Sim... Hoje falaremos de astronomia?
— Você pode me dar uma dessas suas paçoquinhas que estão em cima de sua mesa Moço?
— Claro Criança, claro... — O Moço das Letras entregou a paçoca para a Criança, que começou a comer com um doce prazer.
— Você tem um tempinho para escrever antes do início do seu expediente?
— Tenho sim, geralmente dou uma olhada no jornal neste horário; podemos conversar então.
— Não quero conversar, quero contar para você uma história sobre Helius, o deus do sol na mitologia grega.
— Sem problemas, sou todo ouvidos.
A Criança Interior então narrou a história para o seu amigo...
Era uma vez, lá no Reino do Concreto, um escritório onde trabalhavam dez pessoas, além do proprietário, de nome Helius, que amava o sol. Durante a construção do escritório comercial de nome Solaris, solicitou Helius ao engenheiro responsável, que desejaria muito ver o sol banhando cada uma das janelas do ambiente — eram dez —, no período do expediente, compreendido entre oito e as dezoito horas.
O engenheiro respondeu que era possível, havia aprendido a fazer aquilo não através dos cálculos na escola de engenharia, mas sim, através dos ensinamentos de seu avô, que havia sido um grande construtor de casas no interior. Assim foi feito, de forma que, ao longo de todos os dias, durante todas as estações do ano, o sol, com seus raios vindos de tão longe, visitava durante o dia cada uma daquelas janelas.
Os dez trabalhadores do escritório Solaris, quando lá chegavam, ao abrirem a porta avistavam logo na entrada um cartaz na parede com letras garrafais, onde podia ser lido: DISCIPLINADO SOL, FONTE DE TODA A VIDA E PROSPERIDADE.
Algumas vezes ao longo do ano, de forma bem humorada, Helius chegava mesmo a dizer a todos que, um pouco de luz do sol todos os dias abria de tal forma os canais mentais, chegando mesmo a aumentar a produtividade no trabalho e a qualidade de vida, para aqueles que se permitissem banhar em seus raios.
Quando finalmente chegou o mês de dezembro, nas proximidades do Natal, Helius resolveu presentear seus empregados com um prêmio em espécie pela boa qualidade do trabalho e o substancial aumento do desempenho profissional. Em sua explanação, quando entregou através de suas próprias mãos o prêmio, voltou novamente a frisar a importância do sol naquilo tudo. Nove dos empregados ficaram muito felizes com o presente, um porém, que não recebeu prêmio nenhum, ficou indignado com aquilo tudo. "Todos eles ganharam o prêmio, e eu não. Estou aqui assim como todos os demais todos os dias, e trabalho tanto quanto todos eles, mas para mim absolutamente nada. Grande injustiça, e esta historinha idiota de sol", pensou ele.
Ali no meio de todos os seus colegas tão contentes, ele era o único tomado do mais completo mau humor. No meio daquela alegria toda resolveu então desmascarar o dono do escritório —possivelmente seria demitido —, não aguentava mais, estava inchando feito um baiacu, e sua raiva cresceu e cresceu, que em determinado momento, a fim de não explodir de tanta indignação, ele finalmente verbalizou para todos o que estava sentindo.
— Sr. Helius, tenho uma colocação a fazer — falou Décimo, era esse o seu nome.
— Pois não Décimo — respondeu Helius.
— Tenho aqui ouvido ao longo do ano, através de sua própria voz, que o sol é fonte de vida e prosperidade, e que ajuda mesmo a aumentar a produtividade profissional; não ganhei prêmio nenhum! Fica aqui então o meu protesto, pois ao longo de todo o ano o sol jamais visitou a minha janela, consequentemente, não pude produzir mais; sinto-me então profundamente injustiçado, profundamente...
Fez se um silêncio imenso, ninguém falou absolutamente nada; todos se voltaram então para Helius.
— Você afirma com toda a razão que nunca viu a visita do sol em sua janela. O problema é que ele passa por lá sempre a partir das oito, horário em que se inicia o nosso expediente, ficando por lá por aproximadamente quarenta minutos, e, infelizmente, ao longo de todo o ano, você jamais chegou aqui antes das dez horas da manhã.
Naquele instante era tão grande a vergonha do Décimo, e tão imenso o seu desconforto, que ele desejou de todo o seu coração que um imenso buraco pudesse ser aberto sob os seus pés, a fim de que ele pudesse lá cair e desaparecer para sempre.
No dia seguinte pediu demissão do escritório Solaris e foi trabalhar em uma empresa noturna, onde todas as janelas, durante o expediente, mesmo que abertas, jamais deixariam penetrar a luz de Helius — aquele que tudo sabe —, protegidas todas elas pelo grande manto da deusa Noite, filha do Caos e irmã gêmea da Escuridão.
Finda a história o Moço das Letras tornou a olhar para a mesa ao lado. A Criança havia partido; ali, somente uma embalagem aberta de paçoca e os raios de sol que vinham de longe, muito longe. O Moço das Letras olhou no relógio e viu que já passavam das oito. Estava na hora de começar o seu trabalho, Helius já estava presente.
No dia seguinte pediu demissão do escritório Solaris e foi trabalhar em uma empresa noturna, onde todas as janelas, durante o expediente, mesmo que abertas, jamais deixariam penetrar a luz de Helius — aquele que tudo sabe —, protegidas todas elas pelo grande manto da deusa Noite, filha do Caos e irmã gêmea da Escuridão.
Finda a história o Moço das Letras tornou a olhar para a mesa ao lado. A Criança havia partido; ali, somente uma embalagem aberta de paçoca e os raios de sol que vinham de longe, muito longe. O Moço das Letras olhou no relógio e viu que já passavam das oito. Estava na hora de começar o seu trabalho, Helius já estava presente.
Você tem conseguido abrir a janela para o sol varrer a escuridão! Claríssimo!
ResponderExcluir