Inflamável Esperança

Naquele domingo de outono, o Agricultor Urbano estacionou o carro na beira da rua; foi cuidar de suas amadas árvores. A vizinha próxima   simpática vizinha   saudou-o com alegria. 

— Bom dia Agricultor! Senti sua falta por aqui ultimamente, o Senhor andava sumido...

— Bom dia Senhora... não estava sumido, a mata é grande, estava mais acima, além da curva da rua; prazer em revê-la.

Pegou então suas ferramentas — enxada e cavadeira —, a fim de começar a limpar as bordas do urbano bosque; a estação das queimadas não tardaria. Carpindo ali calmamente, observou alguém ao seu lado, próximo a uma caroba branca; era uma criança, e o Agricultor a conhecia...  a Criança Interior de seu amigo, o Moço das Letras. 

O Agricultor saudou a Criança com um olhar de alegria, e esta respondeu com um enorme sorriso de gratidão. Tal como o seu amigo, o Agricultor também amava profundamente aquele Criança; sabia que ela estava ali a fim de colher em seu coração alguma nova narrativa — a Criança gostava de histórias. Continuou tranquilamente com o seu trabalho, o capim colonião, tal como o sol, já estava alto, com mais de um metro de altura.

Findada a tarefa, o Agricultor retornou para sua casa; a Criança ainda estava ao seu lado, agora no banco do carro, olhando encantada toda a paisagem ao redor, vivendo plenamente aquele instante. Chegando à sua residência, foi para o quintal cuidar do seu viveiro de mudas, e a Criança ficou por ali brincando alegremente com Miúda, Nina e Tição, seus amigos vira latas. 

Uma hora depois, quando terminou de lidar com as plantas, ao seu redor somente os cães, a Criança havia partido; entre os dois nenhuma palavra, mas o Agricultor sabia que naquele dia brotaria das páginas do Moço das Letras, através da sensibilidade daquela Criança, alguma nova história sobre as árvores e as andanças de suas botas.

Então, na noite daquele mesmo dia, ao ser visitado pela sua Criança Interior, o Moço das Letras escreveu...

Naquele domingo de outono o Agricultor estacionou o carro na beira da rua e foi cuidar de suas amadas árvores. A vizinha próxima — simpática vizinha — saudou-o com alegria. 

Retirou do carro suas ferramentas e começou a carpir a beira da rua; aos poucos, além do capim, encontrou também muito plástico e entulho. "Até quando jogarão entulho aqui?" Pensou o Agricultor com um certo ar de tristeza. Olhou ao seu redor e então algo mais profundo e dolorido tocou a sua sensibilidade: Um pau ferro havia sido queimado, e agora e aos poucos recomeçava a brotar. A árvore atingida pelo irmão fogo já havia atingido mais de 10 metros de altura, ele já havia mesmo coletado muitas sementes dela; já havia doado belas floradas amarelas nas primaveras, e no presente, não passava de um pequeno arbusto, lutando bravamente pela vida no meio do resistente, rude e inculto capim africano. 

O Agricultor viveu interiormente aquele instante de tristeza, porém continuou a carpir entre o capim, o plástico e os entulhos deixado pelos homens. Depois de alguns instantes com a enxada na mão, seu olhar atento observou alguma coisa que alegrou o seu coração: No meio daquele capim, descaso público e abandono, ele notou várias pequenas mudas do seu amado pau ferro brotando ali.

Levaria cada uma daquelas mudas para o seu viveiro, e cuidaria delas com todo o amor do seu coração. Naquele instante um pensamento passou pela sua cabeça, transformando-se em sentimento em seu coração: "Homens, vocês podem queimar todas as árvores que eu plantar pelo chão, inflamando cada vez mais a minha esperança que, como os brotos do meu amigo pau ferro, e sobretudo, como brotos de luz em meu coração, permanece sempre, apesar de tudo, germinando em direção ao alto".

Enquanto olhava as mudinhas no chão, o Agricultor observou uma Criança sorrindo ao seu lado, sob a sombra de uma caroba branca. Entre os dois somente olhares, profundos olhares e nada mais. Possivelmente naquele dia haveria alguma história de esperança nas letras do moço, o Moço das Letras, seu grande amigo; inflamável esperança, esperança iluminada e sem palavras.

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