O Forte Apache


O menino era pobre. Brinquedo era lata que virava carro, ripa que virava guindaste, vassoura que virava cavalo.

Mas o tesouro mesmo eram os bonequinhos de plástico da venda do Seu Lobo. Vinham de brinde na bala. Ordinários, disformes, baratos. Ele amava todos. O preferido era o Chefe King, feio de doer, achado no entulho.

Toda tarde ia pro quarto de costura da mãe. Ela costurava, ele armava guerras no chão. Os índios sempre venciam. Eram os heróis dele, diferente do cinema onde branco sempre ganhava. Guardava tudo numa lata de costura velha.

Sonhava com bicicleta, autorama, mas não era infeliz. Trabalhava desde cedo: carregava tijolo, vendia banana, esterco. Juntava trocado pra bala e bonequinho.

Aos 11, virou vendedor de picolé. Isopor a tiracolo, gritava pelas ruas: “Olha o picolé!” Coco, limão, amendoim... Vendia, acertava, voltava pra pelada no campinho de terra debaixo das mangueiras centenárias.

Até que viu na vitrine: um forte apache de madeira. Grande, completo, com soldadinhos pintados, perfeitos. Muito diferente dos seus. Não tinha dinheiro. Mas fez as contas. Se guardasse tudo do verão, talvez desse. E guardou. Vendeu, contou, juntou. O verão acabou. Em abril, tinha o suficiente.

Não contou pra ninguém. Era surpresa. Saiu de casa leve, coração acelerado, dinheiro no bolso. Chegou na loja. O forte tinha sido vendido. Era o único. Voltou chorando. Em silêncio. Em casa, abriu a lata e contou tudo pros soldadinhos velhos. Disse que eles não seriam trocados. Que dividiriam as cabanas do forte se ele tivesse vindo.

Brincaram até tarde naquela noite. Depois ele dormiu. E sonha com aquele forte apache até hoje.

Comentários

  1. Maravilhoso! Sentia a alegria, a pureza, a dor deste menino.Bjs

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    1. Sensível. emoção e criatividade meu caro Aloisio!
      Direto no coração!
      Memória úmida de sentimentos!

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