Os Meninos da Mangueira


Mangueira
Começou o jogo de futebol, a pelada, lá no campinho de terra do Bairro das Mangueiras, periferia de Barra Mansa e Volta Redonda, e os meninos estão jogando, todos misturados. O menino tímido  chega, fica olhando os outros meninos jogarem, como jogam bem aqueles meninos. Ele fica atrás do gol, alguém chuta, erra o gol, a bola vai longe, e o menino, solícito, corre feliz e vai buscar a bola. Pega, traz de volta e entrega para o goleiro, que a devolve para o lateral direito, e o jogo recomeça. O menino, o tímido, fica olhando atrás do gol, a bola vai longe, ele vai buscar novamente, e volta feliz, e entrega para o goleiro, que a devolve para o zagueiro,  e o jogo recomeça. Dia após dia é assim, até que o menino, o encabulado, o futuro agricultor urbano, aquele que pegava a bola com alegria e solicitude atras do gol, é convidado pelos outros meninos a participar da pelada. E a bola rola, e o preto passa para o branco, e o branco recebe, domina, dá um passe em profundidade para o preto que chuta e é gol, gol do preto, com passe do branco, do menino branco. E no outro dia, no campinho de terra batida chegam mais meninos, meninos brancos, meninos pardos, meninos mulatos, meninos loiros, uma meninada só, alegre, pobre, feliz, e todos querem participar do jogo, e todos passam a jogar juntos, e o goleiro é preto, e o lateral direito é branco, e o zagueiro é mulato, e o lateral esquerdo é o Lair,  loiro de olho azul, e o centro avante é negro como a noite, e a bola rola de pé em pé, ora com o branco, ora com o preto, ora com o loiro, e a alegria é uma só, ninguém  sabe qual a cor de ninguém, a bola une a todos, a disputa é saudável e prazerosa. Termina o jogo, os meninos vão para debaixo das mangueiras, é verão, muitas mangas nas árvores, e chupam manga até não poderem mais, e agora vão para o brejo, não tem piscina, não tem clube, é periferia, tem brejo, que bom tomar banho no brejo, com a água represada no meio das taboas. Os meninos até possuem nome, mas muitos são conhecidos e chamados pelos apelidos, o goleiro é o Ado, tem o Marreco, tem o Mandi que é o outro goleiro, um bom goleiro, tem o Joãozinho, com um chute poderoso, tem o Tatu, um centro avante rápido como uma raposa, baixinho, loirinho e bom de bola este Tatu, tem o Dodoi que manca da perna mas  é um habilidoso ponta esquerda, tem o Leitoa que sabe jogar bem, porém tem muita marra, olha lá com a bola o Alonso, que passa para o Valtinho seu irmão, um grande zagueiro, são tantos os garotos, lá vai o Dinho com a bola, chuta forte, e o Lolo defende, bom goleiro este Lolo, porém, tem dia que não pega nada, somente frangos. Olha ali a dupla de zaga, Gordo e Bico, este, jogador bruto, muitas vezes joga deslealmente, na frente dos zagueiros o Zé e o Beto protegem a zaga, no meio do campo Joãozinho, Fernando e o Naldo ditam o rítimo do jogo, e lá na frente Nivaldo e Baiano fazem os gols. E tem também o Dito, de uma habilidade infinita com a bola nos pés, como é difícil roubar a bola dele, e lá vem o Cosme, mais conhecido como Cosminho, agora joga na linha, mas no passado, quando era outro o campo, maior, com grama e mais espaço, era ele o goleiro, e segundo os antigos, havia sido um bom goleiro. Olha lá o Gordo, filho da Dona Célia, um bom sujeito, joga na zaga e está sempre sorrindo, e o Lico, e o Hélio, e o Jésu e outros, tantos outros. E nos domingos o campinho enche, muitos para jogar, e muitos outros para assistirem, ou simplesmente para conversarem, tudo sob a sombra amiga das mangueiras frondosas, velhas mangueiras, centenárias, de tamanho descomunal, suas copas abrigam à todos, existe espaço suficiente para as pessoas, os animais, os carros, os caminhões, tudo cabe debaixo destas gigantes amigas.  E agora acabou a pelada, já é noite, e os meninos vão brincar de pique esconde, ou garrafão, televisão nem pensar, é artigo de luxo, quase inexistente no bairro. Brincam também de polícia e ladrão, de pique bandeira, jogam bolinha de gude, soltam pipa, brincam de peão, todos tão pobres, tão simples, tão felizes. E as ruas são de terra, carro, são raros, passam alguns poucos por semana, às vezes passa o carrão do Damião, o fazendeiro, dono das terras, e o Damião promete bola de capotão para os meninos, e os meninos ficam tão felizes, como é rico e bondoso o Damião, e o tempo passa, e volta o Damião, não com a bola de capotão, mas uma bem vagabunda, de plástico mesmo, e os meninos jogam com aquela bola, e a bola fura, e os meninos dão gargalhada, como é rico o Damião, como é pão duro o Damião. E a roda da vida vai girando, as peladas diárias ocorrendo, e os meninos vão crescendo, e cresce também a cidade, olha a expansão da usina, novos moradores chegando, as mangueiras, nossas queridas mangueiras sendo cortadas, uma por uma, e as casas aparecendo, e a sombra, o frescor e as andorinhas desaparecendo. E a infância vai terminando, alguns meninos começam a trabalhar, outros vão estudar fora, outros ainda vão para longe, para muito longe, e não tem mais as mangueiras, os encontros e as peladas são coisas do passado, o presente levou tudo de roldão. E olha o Dito, vai para muito longe trabalhar, lá pelos lados da Bahia, parte ainda com a lembrança viva do campinho e das mangueiras e dos amigos, tudo ainda estava lá, e o Dito, aquele menino tão habilidoso com a bola fica anos, muitos anos fora, quase uma vida, e um dia volta, volta feliz, e corre para ver o campinho, para ver as mangueiras, para ver os amigos, porém tudo havia mudado, no lugar do campinho muitas casas, no lugar das mangueiras mais casas e ruas, tudo acabado, tudo loteado pelo Damião da bola de capotão, tudo virou pó, ficaram apenas as lembranças. O Bico morreu, o Cosminho morreu, o Lair morreu, o Damião viveu mais de 100 anos, não nos deu a nossa bola de capotão e também morreu, outros foram embora do Bairro, sem notícias, e o Dito volta triste para casa, as lembranças que ele por muitos anos no seu exílio, havia guardado em seu coração viraram pó, e o Dito também morreu, talvez, quem sabe, de tanta saudade,  então fica o dito pelo não dito. 

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