Príncipe Zinho, a Negação e a Realidade
Era uma vez, há muito tempo, lá no distante Reino do Sul dos Confins da Escuridão, o Reino do Sul, um príncipe chamado Zinho, que estava em seu refúgio pessoal — um local muito confortável —, vivendo um grande dilema.
Príncipe Zinho sabia que mais cedo ou mais tarde teria que abandonar aquele refúgio protetor e sair para viver no mundo exterior — aquilo era inevitável. Mas do seu refúgio ele percebia que o mundo lá fora era muitas vezes hostil, notava ele claramente que as pessoas que lá viviam brigavam entre si, percebeu ainda que haviam mentiras, dissimulações, duros olhares, abandono, ausência, repressão, imposição da vontade do mais forte sobre os mais fracos...
Um dia, enquanto refletia sobre tudo aquilo, príncipe Zinho ouviu batidas na porta; quem seria? Caminhou até ela e a abriu.
— Bom dia — falou o visitante.
— Bom dia, em que posso ser útil? — respondeu o príncipe.
— Sou a Realidade Exterior, soberana absoluta de tudo aquilo que você, vivendo aqui dentro, observa lá fora. Prazer em conhecê-lo príncipe...
— príncipe Zinho!
— Está chegando a hora de você sair do seu refúgio e acompanhar-me, a fim de viver a sua vida fora daqui, como todos os demais.
— Realidade... tenho observado que no seu universo tudo parece um pouco assustador, acho que vou ficar por aqui mais um pouco.
— Há quanto tempo você está aqui príncipe Zinho?
— Creio que oito meses, aproximadamente...
— Ninguém fica onde você está por mais de nove meses príncipe Zinho, portanto, está chegando a sua vez de acompanhar-me. Vai fugir da minha pessoa, a Realidade, e de suas responsabilidades?
— Realidade Exterior... falando sinceramente, creio que terei muitas dificuldades na sua presença; não gosto de ouvir não, vou desejar impor minha vontade sobre os demais — até mesmo sobre o grande rei —, e certamente vou tentar ter algum controle sobre você, vou mesmo desejar moldá-la à minha maneira de observar o mundo — algo como o barro nas mãos do moleiro. Podemos negociar antes da minha decisão?
— Príncipe Zinho, eu sou a Realidade nua e crua, e de forma alguma negocio com quem quer que seja, isto não faz parte de minha natureza. Mas ofereço-lhe alguém que poderá ajudá-lo muito a viver na minha presença: Minha fiel servidora, a Aceitação. Basta seguir os passos dela ao longo de toda a sua vida, a fim de conviver comigo absolutamente em paz, sem a inútil e dolorosa tentativa de fuga, que, caso ocorra, levará você a penosos estágios de doença mental e emocional, e a profundos abismos com choros e ranger de dentes.
Príncipe Zinho refletiu um pouco — não gostou nem um pouco da resposta imperiosa da Realidade —, despediu-se de sua visitante, e resolveu que daria a resposta para ela mais tarde, tinha ainda um mês para resolver aquele problema.
— Escute príncipe Zinho: Voltarei daqui a trinta dias e vou chamá-lo novamente. Será a hora de sua decisão, e caso queira acompanhar os passos da Aceitação e viver a Realidade, por favor, ao sair daqui, dirija-se à direita da porta, estarei lá à sua espera, porém, não estarei só. Tenha um ótimo dia! — Falou a Realidade antes de sair.
Naquele noite ele não dormiu, implorando aos céus uma solução; como era dura, objetiva e direta a Realidade, pensou ele antes de finalmente pegar no sono.
No dia seguinte, bem cedo, príncipe Zinho foi acordado com batidas na porta. Sem demora e um pouco assustado foi até lá. Seria a Realidade tão cedo?
— Bom dia meu nobre príncipe Zinho, bom dia...
— Quem é você?
— Ouvi seus apelos noturnos príncipe, e então vim aqui hoje oferecer-lhe meus serviços. Sou a Negação, inimiga fidagal daquela estúpida Realidade.
— Prazer Negação! Como você poderá ajudar-me a fugir de sua inimiga, aquela megera? Confesso que não gostei dela nem um pouco, ela me assustou demais.
— Posso ajudá-lo a atravessar sua vida completamente alheio à Realidade, apesar da inevitável proximidade com ela.
— E como isto pode ser feito Negação?
— Simples príncipe, muito simples... você ao longo de sua vida passará a estar sempre ao meu lado, seguirei todos os seus passos, na verdade, darei mesmo cada um de seus passos, e, com o meu poder e minha força, tal qual um poderoso repelente, manterei a Realidade sempre a uma distância segura.
— Isto funciona Negação?
— Claro que funciona príncipe, tenho inúmeros clientes que seguem os meus passos desde a antiguidade... Sob minha proteção, você poderá fechar-se de tal forma em si mesmo, que ninguém, nem mesmo a Realidade, poderá vir a encontrá-lo um dia. Você passará pelo mundo sem estar no mundo, vivendo em uma bolha protegida e segura — algo parecido com este lugar aqui —, e ainda colocarei diariamente em sua vida diversos servidores — meus fiéis servidores —, para ajudá-lo caso a Realidade venha a procurá-lo: Autopiedade, Solidão, Projeção, Agressividade, Passividade, Rancor, Indiferença, Medo, Culpa, Vergonha Tóxica, Ressentimento...
— Nossa... tantos servidores Negação... Mas qual é afinal de contas a função de cada um deles?
— Como você já está sabendo meu amado príncipe, a Aceitação, aquela fiel servidora da Realidade, tentará ao longo de toda a sua vida mantê-lo ligado ao reino de sua governanta — uma verdadeira intromissão meu nobre príncipe. Portanto, a função de cada um destes meus servidores ao seu lado, será a de afugentar a todo instante a Aceitação, a vigilante fiel da Realidade.
Imagine príncipe, que em uma noite escura, sem a presença da lua, um malfeitor resolva assaltar os quintais de algumas casas de uma aldeia qualquer. Digamos que em alguns destes quintais, o malfeitor encontre cães soltos e ferozes tomando conta da propriedade, enquanto os seus donos dormem. Certamente que o amigo do alheio vai procurar as casas sem os cães, é muito mais seguro para ele. Concorda príncipe Zinho?
— Sim... concordo Negação.
— Portanto príncipe, meus servidores de confiança tomarão conta de sua vida — tal como os cães —, não permitindo nunca a aproximação da Aceitação — tal como o malfeitor da nossa história.
— Muito bem planejado Negação, uma verdadeira engenhosidade mental. Mas são tantos servidores... tudo isto deve gerar um grande trabalho.
— Tudo muito Complexo príncipe, muito complexo... são mesmo muitos servidores, porém, não é fácil manter a Realidade distante, teria mesmo um imenso trabalho para gerenciar toda esta equipe em atividade ao seu lado ao longo de toda a sua vida — sem contar os desentendimentos entre eles, as intrigas, os encargos sociais, as leis trabalhistas...
— Como assim teria um imenso trabalho? — Indagou o príncipe Zinho.
— Sou muito ocupada na minha atividade diária da Negação príncipe, são tantos os que requisitam os meus serviços, milhões... eu jamais daria conta, então, contratei uma gerente que controla todos estes servidores para mim ao longo de todo o tempo. Desta forma, nem eu e nem mesmo você teremos que nos preocupar com coisa alguma, a gerente cuidará de tudo para nós, sua eficiência é extraordinária.
— Uma gerente?
— Sim príncipe Zinho, uma gerente. O nome dela é Depressão. Uma vez que você aceite a minha proposta, ela cuidará de toda a sua vida e de tudo o mais, e desta forma adeus Realidade e Aceitação. Ela é de poucas palavras e muito discreta. O que achou príncipe?
— Estou pensando Negação, não me parece ruim a ideia.
— Príncipe Zinho, você gosta deste lugar onde estamos agora?
— Sim Negação, gosto, gosto demais. Aqui tudo a tempo e a hora, o espaço é todo meu, a temperatura e tudo o mais funciona de forma maravilhosa, e eu não tenho preocupação com absolutamente nada, um verdadeiro paraíso. Mas percebo que a cada dia — talvez seja impressão minha —, o espaço vai diminuindo, diminuindo...
— O que ofereço para você príncipe Zinho, é um anexo deste lugar que você tanto ama dentro do contexto da própria Realidade, e você poderá viver até o final dos seus dias neste novo refúgio — uma verdadeira ilha da fantasia —, tão funcional e aconchegante como este aqui. Ainda tem dúvidas?
— Acho que é tudo o que eu quero Negação, mas não vou tomar uma decisão destas de uma forma tão abrupta, tenho ainda um mês pela frente.
— Escute príncipe Zinho: Voltarei daqui a trinta dias e vou chamá-lo novamente. Será a hora de sua decisão, e caso queira acompanhar os meus passos e viver longe da Realidade, por favor, ao sair daqui, dirija-se à esquerda da porta, estarei lá à sua espera, porém, não estarei só. Tenha um ótimo dia! — Falou a Negação antes de sair.
Então, durante aqueles últimos trinta dias em seu refúgio de tranquilidade, príncipe Zinho ficou pensando em que solução adotar para a sua vida. Ele teria necessariamente que optar entre a dura Realidade e a doce Negação — a escolha não seria fácil.
Passados aqueles dias finais no seu paraíso pessoal, em uma certa noite, príncipe Zinho acordou de seu sono ouvindo vozes exteriores que chamavam pelo seu nome; ele conhecia aquelas vozes. Levantou-se e caminhou em direção à porta, abrindo-a. Ficou ali no umbral aguardando, seu coração estava disparado, não havia mais como voltar, daquele instante em diante sua vida mudaria para sempre. Príncipe Zinho ouviu então uma voz que vinha do lado direito da porta, uma voz direta e objetiva: "Vamos príncipe, caminhe pela sua vida seguindo os passos da Aceitação" — era a dura voz da realidade. Logo em seguida, ouviu o príncipe uma outra voz, uma voz que vinha do lado esquerdo da porta, uma voz doce e convidativa: "Meu caríssimo príncipe, caminhe pela vida seguindo os meus passos" — era a voz da Negação.
Príncipe Zinho, naquele momento decisivo de sua vida, olhou uma última vez para trás, em seguida fechou a porta e deu alguns passos em direção à escuridão. Como a noite era muito escura — não havia nenhuma lua no céu —, não foi possível determinar se ele caminhou para a direita ou para a esquerda.
Príncipe Zinho sabia que mais cedo ou mais tarde teria que abandonar aquele refúgio protetor e sair para viver no mundo exterior — aquilo era inevitável. Mas do seu refúgio ele percebia que o mundo lá fora era muitas vezes hostil, notava ele claramente que as pessoas que lá viviam brigavam entre si, percebeu ainda que haviam mentiras, dissimulações, duros olhares, abandono, ausência, repressão, imposição da vontade do mais forte sobre os mais fracos...
Um dia, enquanto refletia sobre tudo aquilo, príncipe Zinho ouviu batidas na porta; quem seria? Caminhou até ela e a abriu.
— Bom dia — falou o visitante.
— Bom dia, em que posso ser útil? — respondeu o príncipe.
— Sou a Realidade Exterior, soberana absoluta de tudo aquilo que você, vivendo aqui dentro, observa lá fora. Prazer em conhecê-lo príncipe...
— príncipe Zinho!
— Está chegando a hora de você sair do seu refúgio e acompanhar-me, a fim de viver a sua vida fora daqui, como todos os demais.
— Realidade... tenho observado que no seu universo tudo parece um pouco assustador, acho que vou ficar por aqui mais um pouco.
— Há quanto tempo você está aqui príncipe Zinho?
— Creio que oito meses, aproximadamente...
— Ninguém fica onde você está por mais de nove meses príncipe Zinho, portanto, está chegando a sua vez de acompanhar-me. Vai fugir da minha pessoa, a Realidade, e de suas responsabilidades?
— Realidade Exterior... falando sinceramente, creio que terei muitas dificuldades na sua presença; não gosto de ouvir não, vou desejar impor minha vontade sobre os demais — até mesmo sobre o grande rei —, e certamente vou tentar ter algum controle sobre você, vou mesmo desejar moldá-la à minha maneira de observar o mundo — algo como o barro nas mãos do moleiro. Podemos negociar antes da minha decisão?
— Príncipe Zinho, eu sou a Realidade nua e crua, e de forma alguma negocio com quem quer que seja, isto não faz parte de minha natureza. Mas ofereço-lhe alguém que poderá ajudá-lo muito a viver na minha presença: Minha fiel servidora, a Aceitação. Basta seguir os passos dela ao longo de toda a sua vida, a fim de conviver comigo absolutamente em paz, sem a inútil e dolorosa tentativa de fuga, que, caso ocorra, levará você a penosos estágios de doença mental e emocional, e a profundos abismos com choros e ranger de dentes.
Príncipe Zinho refletiu um pouco — não gostou nem um pouco da resposta imperiosa da Realidade —, despediu-se de sua visitante, e resolveu que daria a resposta para ela mais tarde, tinha ainda um mês para resolver aquele problema.
— Escute príncipe Zinho: Voltarei daqui a trinta dias e vou chamá-lo novamente. Será a hora de sua decisão, e caso queira acompanhar os passos da Aceitação e viver a Realidade, por favor, ao sair daqui, dirija-se à direita da porta, estarei lá à sua espera, porém, não estarei só. Tenha um ótimo dia! — Falou a Realidade antes de sair.
Naquele noite ele não dormiu, implorando aos céus uma solução; como era dura, objetiva e direta a Realidade, pensou ele antes de finalmente pegar no sono.
No dia seguinte, bem cedo, príncipe Zinho foi acordado com batidas na porta. Sem demora e um pouco assustado foi até lá. Seria a Realidade tão cedo?
— Bom dia meu nobre príncipe Zinho, bom dia...
— Quem é você?
— Ouvi seus apelos noturnos príncipe, e então vim aqui hoje oferecer-lhe meus serviços. Sou a Negação, inimiga fidagal daquela estúpida Realidade.
— Prazer Negação! Como você poderá ajudar-me a fugir de sua inimiga, aquela megera? Confesso que não gostei dela nem um pouco, ela me assustou demais.
— Posso ajudá-lo a atravessar sua vida completamente alheio à Realidade, apesar da inevitável proximidade com ela.
— E como isto pode ser feito Negação?
— Simples príncipe, muito simples... você ao longo de sua vida passará a estar sempre ao meu lado, seguirei todos os seus passos, na verdade, darei mesmo cada um de seus passos, e, com o meu poder e minha força, tal qual um poderoso repelente, manterei a Realidade sempre a uma distância segura.
— Isto funciona Negação?
— Claro que funciona príncipe, tenho inúmeros clientes que seguem os meus passos desde a antiguidade... Sob minha proteção, você poderá fechar-se de tal forma em si mesmo, que ninguém, nem mesmo a Realidade, poderá vir a encontrá-lo um dia. Você passará pelo mundo sem estar no mundo, vivendo em uma bolha protegida e segura — algo parecido com este lugar aqui —, e ainda colocarei diariamente em sua vida diversos servidores — meus fiéis servidores —, para ajudá-lo caso a Realidade venha a procurá-lo: Autopiedade, Solidão, Projeção, Agressividade, Passividade, Rancor, Indiferença, Medo, Culpa, Vergonha Tóxica, Ressentimento...
— Nossa... tantos servidores Negação... Mas qual é afinal de contas a função de cada um deles?
— Como você já está sabendo meu amado príncipe, a Aceitação, aquela fiel servidora da Realidade, tentará ao longo de toda a sua vida mantê-lo ligado ao reino de sua governanta — uma verdadeira intromissão meu nobre príncipe. Portanto, a função de cada um destes meus servidores ao seu lado, será a de afugentar a todo instante a Aceitação, a vigilante fiel da Realidade.
Imagine príncipe, que em uma noite escura, sem a presença da lua, um malfeitor resolva assaltar os quintais de algumas casas de uma aldeia qualquer. Digamos que em alguns destes quintais, o malfeitor encontre cães soltos e ferozes tomando conta da propriedade, enquanto os seus donos dormem. Certamente que o amigo do alheio vai procurar as casas sem os cães, é muito mais seguro para ele. Concorda príncipe Zinho?
— Sim... concordo Negação.
— Portanto príncipe, meus servidores de confiança tomarão conta de sua vida — tal como os cães —, não permitindo nunca a aproximação da Aceitação — tal como o malfeitor da nossa história.
— Muito bem planejado Negação, uma verdadeira engenhosidade mental. Mas são tantos servidores... tudo isto deve gerar um grande trabalho.
— Tudo muito Complexo príncipe, muito complexo... são mesmo muitos servidores, porém, não é fácil manter a Realidade distante, teria mesmo um imenso trabalho para gerenciar toda esta equipe em atividade ao seu lado ao longo de toda a sua vida — sem contar os desentendimentos entre eles, as intrigas, os encargos sociais, as leis trabalhistas...
— Como assim teria um imenso trabalho? — Indagou o príncipe Zinho.
— Sou muito ocupada na minha atividade diária da Negação príncipe, são tantos os que requisitam os meus serviços, milhões... eu jamais daria conta, então, contratei uma gerente que controla todos estes servidores para mim ao longo de todo o tempo. Desta forma, nem eu e nem mesmo você teremos que nos preocupar com coisa alguma, a gerente cuidará de tudo para nós, sua eficiência é extraordinária.
— Uma gerente?
— Sim príncipe Zinho, uma gerente. O nome dela é Depressão. Uma vez que você aceite a minha proposta, ela cuidará de toda a sua vida e de tudo o mais, e desta forma adeus Realidade e Aceitação. Ela é de poucas palavras e muito discreta. O que achou príncipe?
— Estou pensando Negação, não me parece ruim a ideia.
— Príncipe Zinho, você gosta deste lugar onde estamos agora?
— Sim Negação, gosto, gosto demais. Aqui tudo a tempo e a hora, o espaço é todo meu, a temperatura e tudo o mais funciona de forma maravilhosa, e eu não tenho preocupação com absolutamente nada, um verdadeiro paraíso. Mas percebo que a cada dia — talvez seja impressão minha —, o espaço vai diminuindo, diminuindo...
— O que ofereço para você príncipe Zinho, é um anexo deste lugar que você tanto ama dentro do contexto da própria Realidade, e você poderá viver até o final dos seus dias neste novo refúgio — uma verdadeira ilha da fantasia —, tão funcional e aconchegante como este aqui. Ainda tem dúvidas?
— Acho que é tudo o que eu quero Negação, mas não vou tomar uma decisão destas de uma forma tão abrupta, tenho ainda um mês pela frente.
— Escute príncipe Zinho: Voltarei daqui a trinta dias e vou chamá-lo novamente. Será a hora de sua decisão, e caso queira acompanhar os meus passos e viver longe da Realidade, por favor, ao sair daqui, dirija-se à esquerda da porta, estarei lá à sua espera, porém, não estarei só. Tenha um ótimo dia! — Falou a Negação antes de sair.
Então, durante aqueles últimos trinta dias em seu refúgio de tranquilidade, príncipe Zinho ficou pensando em que solução adotar para a sua vida. Ele teria necessariamente que optar entre a dura Realidade e a doce Negação — a escolha não seria fácil.
Passados aqueles dias finais no seu paraíso pessoal, em uma certa noite, príncipe Zinho acordou de seu sono ouvindo vozes exteriores que chamavam pelo seu nome; ele conhecia aquelas vozes. Levantou-se e caminhou em direção à porta, abrindo-a. Ficou ali no umbral aguardando, seu coração estava disparado, não havia mais como voltar, daquele instante em diante sua vida mudaria para sempre. Príncipe Zinho ouviu então uma voz que vinha do lado direito da porta, uma voz direta e objetiva: "Vamos príncipe, caminhe pela sua vida seguindo os passos da Aceitação" — era a dura voz da realidade. Logo em seguida, ouviu o príncipe uma outra voz, uma voz que vinha do lado esquerdo da porta, uma voz doce e convidativa: "Meu caríssimo príncipe, caminhe pela vida seguindo os meus passos" — era a voz da Negação.
Príncipe Zinho, naquele momento decisivo de sua vida, olhou uma última vez para trás, em seguida fechou a porta e deu alguns passos em direção à escuridão. Como a noite era muito escura — não havia nenhuma lua no céu —, não foi possível determinar se ele caminhou para a direita ou para a esquerda.
Você nos trás assuntos tão sérios e graves, com a leveza e delicadeza das crianças e dos poetas. Quanta reflexão, nestes textos! Obrigada, que possamos aprender com os meninos da sua obra!
ResponderExcluirÉ a criança em mim quem escreve.
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