O Menino Lampião e o Professor Silvestre

Era verão e o dia estava quente, muito quente; o Moço das Letras dirigiu-se à cozinha, precisava beber água. A porta da geladeira estava aberta, e bem em frente dela sua Criança Interior comia alguma coisa. O Moço das Letras não levou nenhum susto, já conhecia aquela Criança.

- Tudo bem com você Criança? 

- Sim... estou comendo beijinho de coco, um doce... 

- Sim, é um doce muito gostoso, impossível mesmo comer somente um pedaço. 

- Um doce a Gata de Olhos Verdes, aquela que fez o doce. Gostou da história da Vaca Malhada e a Anta Letrada

- Confesso Criança, que senti muita compaixão pela bicharada no final, principalmente pela pobre Vaca. 

- Precisava ser escrito Moço, precisava ser escrito... Trago para você hoje uma história sobre um certo Silvestre.

- A do Rato Silvestre você já me contou. 

- Não é a do Rato Silvestre, é a do professor Silvestre. Podemos começar? 

- Sim - respondeu o Moço das Letras. 

Então, enquanto degustava o doce da Gata, a Criança Interior começou a ditar a história para o Moço das Letras.

Era uma vez lá no reino do Meio, dentro de uma floresta que crescia a cada dia, um senhor avançado na idade, de cabelos totalmente brancos, com um olhar manso e amigo; seu semblante traduzia uma bondade infinita, e seu sorriso era mesmo o sinônimo de todo o amor que emanava do seu coração. Ele andava por entre as árvores observando cada uma delas, falando mesmo com elas. 

- Menina Aroeira Pimenteira, dois anos de idade, dois metros e dois centímetros de altura, aprovada... Menino Ipê roxo, um ano de idade, um metro e quatro centímetros de altura, aprovado... Menino Jacarandá da Bahia, três anos de idade, três metros e meio de altura, aprovado... 

Ele Andava lentamente e observava com muita atenção as árvores, principalmente as menores; olhava para cada detalhe, nada escapava de seu amoroso olhar. 

- Menino Cedro Rosa, um ano, um metro, aprovado... 

Naquele mesmo dia, bem perto dali,  andava também pela mata o Menino Lampião e sua inseparável amiga, a cadelinha Luz. No silêncio da mata, quebrado apenas pelo soprar do vento e pelo canto de alguns pássaros naquela hora do dia, o menino observava curioso algumas flores que cresciam no entorno de algumas pequenas árvores. As flores estavam dispostas em tão perfeita simetria, que o menino Lampião poderia mesmo afirmar que aquilo era obra de algum artista; "Deve ter sido obra do grande arquiteto natural" pensava ele. 

Lampião  ouviu então aquela voz não muito distante, citando nome de árvores e as aprovando. Quem seria?  Seguiu então com os seus ouvidos aquele doce som, e dentro de alguns instantes deparava-se com aquele homem sereno e sorridente, e no exato instante em que pousou nele o seu olhar, descobriu que o amava.

- Bom dia menino Lampião, bom dia menina Luz... que alegria em vê-los por aqui no dia de hoje. 

- Bom dia. O Senhor nos conhece? 

- Claro menino, te conheço a muitos anos, te conheço desde o princípio da grande guerra de escuridão. Sei que você e a menina Luz são os responsáveis pelo plantio de todas as árvores desta floresta. Muito prazer menino Lampião, meu nome é Silvestre, professor Silvestre;  venho da Aldeia dos Mestres, onde habito. 

- Ando por aqui a muitos anos professor, e nunca notei a sua presença antes. 

- Estou sempre por aqui menino Lampião, porém, no dia de hoje você ouviu minha voz e  finalmente me encontrou pessoalmente. 

- E o que o senhor faz por aqui diariamente professor Silvestre? 

- Avalio e aprovo as árvores que você planta menino Lampião. 

- Aprova? Como assim professor Silvestre? 

- Bem... em média, cada árvore cresce um metro por ano, então passo a cada ano, e observo o tamanho de cada uma daquelas plantadas no ano anterior, e caso tenham mais de um metro de altura, então eu as aprovo. Nunca reprovei nenhuma árvore. 

O menino Lampião olhou para o professor um tanto o quanto atônito - estaria o amável mestre com alguma doença da mente? 

- Professor, se nenhuma árvore jamais foi reprovada, por que então a necessidade da avaliação com a consequente aprovação? 

- Venha comigo menino Lampião, venha comigo... 

Lampião e Luz saíram então atrás do professor mata adentro, até que chegaram em um local árido, onde, notava-se, as árvores cresciam com enormes dificuldades. O professor Silvestre aproximou-se então de um pequeno Angico Vermelho com mais de um ano de idade e menos de um metro de altura. Estando bem pertinho da árvore, conversou amorosamente com ela, e falava tão baixinho que parecia mesmo um idioma sem palavras, assim como a linguagem do coração. 

- Bom dia menino Angico Vermelho... 

- Bom dia professor Silvestre... 

- Com dificuldades para crescer meu menino Angico Vermelho? 

- Sim professor... o solo aqui é muito duro e pedregoso, e não encontro forças para penetrar minhas raízes no chão; sinto também melancolia professor, pois ao redor percebo muita aridez, o que me trás uma certa angústia, medo e insegurança também. Percebo ao longe outras árvores crescendo professor, e por não conseguir crescer também, muitas vezes sinto-me culpado e incapaz.

- Vou ajudá-lo a crescer menino Angico Vermelho, aguarde um minutinho... 

O professor, seguido por Luz e Lampião, andou um pouco, dirigindo-se até um local onde havia terra com muita matéria orgânica. Chegando lá, recolheu um pouco de húmus do chão, colocando-o em uma folha de palmeira - que ele improvisou como recipiente -, e retornou para o local onde crescia o pequenino Angico. 

- Menino Angico Vermelho - falou o professor amorosamente -, colocarei no seu entorno um pouco deste húmus da floresta; ele te dará forças para crescer, e também lhe ajudará a reter sobre suas raízes as águas da chuva. 

Em seguida o professor afastou-se novamente, coletou algumas sementes de flores, voltando-se mais uma vez para o pequeno Angico Vermelho. 

- Semearei aqui pertinho de você algumas sementes de margaridas que, sob este húmus, crescerão e abrirão suas flores rapidamente; quando você sentir angústia ou alguma insegurança, observe a beleza de cada uma delas com carinho, que elas te ajudarão a crescer. Brevemente retornarei para te visitar, confiança menino Angico Vermelho, confiança meu filho...

O Professor Silvestre pegou então na sua cintura o seu cantil, e de forma mansa e carinhosa despejou aquela água bendita sobre a planta, e enquanto regava o Angico sorria para ele.

- Até breve menino Angico Vermelho, até breve...

- Até breve professor Silvestre - falou cheio de gratidão o Angico Vermelho. 

- Daqui a alguns meses menino Lampião, passarei por aqui novamente, e a possibilidade de aprová-lo será grande, muito grande. 

- Professor Silvestre, então todas estas flores que eu vejo espalhadas pelos pés das árvores na floresta vieram através de suas mãos? 

- Não necessariamente menino Lampião... algumas destas sementes foram trazidas pelo vento, outras pelos pássaros, ou ainda por pequenos animais, e outras ainda brotaram espontaneamente... 

- Espontâneo é o seu amor - complementou o menino Lampião.

O professor apenas sorriu; precisava partir, precisaria ainda naquele dia avaliar outras árvores miúdas floresta adentro.

- Até breve menino Lampião. Um dia, rostos que você jamais verá darão graças ao Pai por estas árvores que crescerão aqui. 

- A propósito professor Silvestre, onde fica a Aldeia dos Mestres?

- A Aldeia fica bem pertinho menino Lampião, bem pertinho do seu coração. Todas as vezes que você sentir com intensidade e amor estará lá, onde será muito bem recebido.

- Enorme foi minha alegria em conhecê-lo Mestre - falou emocionado o menino.

Luz, que se manteve calada o tempo todo, correu até o professor, e, como profundo sinal de reverência, lambeu os seus pés.

O tempo avançou, e alguns meses depois, passando perto daquele Angico, o menino Lampião notou que muitas flores brancas cresciam no seu entorno, e feliz da vida, constatou que a pequena árvore possuía agora seguramente bem mais do que um metro de altura.

- Menino Angico Vermelho, um ano e quatro meses de vida, aproximadamente um metro e cinco centímetros de altura. Nota dez, Aprovado! - falou o menino Lampião com lágrimas nos olhos, enquanto, também cheia de contentamento, latia para a árvore a pequenina Luz.

- Um doce... - falou a Criança que ainda estava por ali comendo o beijinho de coco da Gata de Olhos Verdes.

- Sim... é mesmo muito doce a Gata de Olhos Verdes.

- Um doce o Professor Silvestre, aquele que ensina com amor, deixando um rastro de flores pelo seu caminho. Gostou da história Moço das Letras?

- Gostei muito Criança, gostei muito...

Brevemente Moço, contarei para você um conto de um certo demônio que andou habitando os recantos do coração de um homem - falou pela última vez a Criança, saindo pela porta dos fundos do quintal com o rosto todo melado de doce.

Muito doce essa Criança, escreveu o Moço das Letras encerrando a crônica. 

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