O Menino Lampião na Aldeia da Negação

O Moço das Letras estava cansado naquele dia; cansado e sobretudo triste, por não ter conseguido conversar com o seu amigo, o Agricultor Urbano, no dia anterior. Resolveu então que não escreveria nada naquela noite, mesmo se tentasse, não seria mesmo possível, não conseguia sentir nenhuma inspiração.

Ficou então sentado na copa ouvindo música, quando, sem mais nem menos, de forma repentina, uma pequena criança apareceu ao seu lado.

- Olá Moço das Letras...

- Olá Menino. De onde você veio?

- Vim de um lugar cheio de histórias para contar. 

O Moço das Letras achou que a criança era filho de algum vizinho ali da vila - sabia mesmo o seu nome -, a porta da sala estava aberta, e o portão da casa também.

- Moço... você poderia escrever uma história?

- Hoje não menino, estou muito cansado.

- Mas eu sei que você gosta de escrever histórias, conheço muitas delas...

- Sim criança, eu gosto de escrever, mas hoje não será possível. Se você quiser, posso ler uma delas para você.

- Você está triste por não ter conseguido falar com o Agricultor Urbano no dia de ontem?

- Sim, um pouco...

- Ele esteve na sua rua e você não o percebeu dentro do uniforme amarelo, e agora não consegue se perdoar... é isto?

- Sim menino... é isto. Como você sabe disso? Ah já sei... Você leu esta história também.

- Moço... se eu for embora sem a história, possivelmente amanhã, como neste instante, você poderá estar carregado de lamentos também. Se eu ditar a história você escreve?

O Moço das Letras achou a criança um pouco presunçosa, onde já se viu uma lamentação por uma historinha infantil não contada. Coisas mesmo de criança.

- Você vai ditar a história para mim?

- Sim. Eu dito, e você simplesmente escreve.

O Moço das Letras olhou para aquela criança, sentiu mesmo vontade de dar uma gargalhada - um menino anônimo ditando uma história -, porém, para não decepcioná-la, ou talvez para se ver mesmo livre - os pais já deveriam estar à procura dela -, resolveu concordar.

- Está bom criança, vou escrever a história.

- Então vamos lá, comecemos pelo título.

- Sim, é razoável... Qual será? A Vaca Amarela, Os Três Porquinhos, A Mula Sem Cabeça...

- Nada disso. Brevemente escreveremos sobre A Vaca Malhada e a Anta Letrada. O Título da história de hoje será: "O Menino Lampião no Reino da Negação" - falou a criança.

 O Moço das Letras então escreveu o título, a criança era esperta, conhecia o Menino Lampião... já deveria também ter lido algumas de suas histórias, como muitas outras também.

- Escreveu o título Moço?

- Sim menino escrevi.

- Vou ditar agora a história para você, escreva aí na tela do seu computador:

E o Moço das Letras escreveu...

Era uma vez lá no Reino do Meio, no tempo da guerra da escuridão, um menino de nome Lampião e sua fiel amiga, a cadelinha Luz. Naquele dia o menino Lampião estava procurando por sementes de Jatobás, quando Luz então avistou um Jacu e começou a correr velozmente atrás dele. Lampião, com o intuito de salvar a ave das garras da Luz, correu também gritando para a vira lata, e por mais que gritasse, Luz continuava a correr atrás do pássaro apavorado.

Depois de muitos gritos e correria, próximo a um longo declive, o jacu bateu asas e finalmente voou, escapando feliz na imensidão do grande céu.

Lampião, cansado, sentou-se para tomar folego, e olhando ao longe, avistou uma enorme extensão azul, algo de um tamanho quase infinito... era o mar. Lampião ficou extasiado com a visão, ficou ali olhando por muito tempo. Notou também que próximo àquele mundo de água havia uma aldeia. 

- Que lugar será aquele Luz? 

Como Luz não respondeu - estava também cansada pela caça mal sucedida -, Lampião, por curiosidade, ou quem sabe encanto, resolveu ir até lá. 

Algumas horas depois, já sentindo o ar marinho, Lampião e Luz chegaram ao litoral e à aldeia. O menino deu uma olhada geral no local e notou um certo traço de abandono. A primeira impressão que lhe ocorreu era que aquele lugar havia sido próspero um dia e, por algum motivo, o progresso havia sido interrompido, ido embora, assim como um pai que abandona o próprio lar. 

Lampião foi andando por ali, passou então perto de uma escola, era cedo ainda, e a criançada já estava indo embora. Interpelou-então um dos meninos que vinha em sua direção.

- Bom dia menino... 

- Bom dia.

- Meu nome é Lampião e venho de terras distantes.

- Prazer Lampião, meu nome é Paulo.

- Paulo, por que vocês estão indo embora da escola tão cedo, aconteceu alguma coisa?

- Todos os dias é assim Lampião; as aulas são ministradas de forma parcial, e depois todos nós, alunos e professores, no meio da manhã vamos para nossas casas, a fim de nos preparamos para o retorno do nosso rei.

- Para onde foi o rei Paulo?

- O rei embarcou para uma guerra nas terras do além mar, e esperamos ansiosamente pela sua volta.

- Mas vocês não conseguem precisar o dia exato em que ele vai chegar?

- Infelizmente não conseguimos, e como pode ser qualquer dia, então diariamente, quase todos os moradores da aldeia, mais ou menos a esta hora, largam todos os seus afazeres, para, na parte da tarde, dirigirem-se para aquela colina - Paulo apontou para Lampião - e lá do alto ficamos olhando para o horizonte distante, aguardando o retorno do navio com o nosso amado rei.

- Vocês gostam muito do rei Paulo?

- Sim Lampião, sim... o rei é muito amado e ama também todo o seu povo. Enquanto ele esteve por aqui, antes da guerra, sempre ouve muito desenvolvimento e dinamismo, não faltava trabalho para ninguém; todos os celeiros estavam cheios de grão, e haviam sempre inúmeros navios de diversos reinos atracados em nosso porto; com o rei entre nós a vida pulsava em abundância.

Paulo e a criançada seguiram seu caminho, e Luz e Lampião continuaram caminhando pela aldeia. O menino viu muitos campos com espigas a colher, viu casas em estado de abandono, ruas sujas, pessoas com olhares distantes e perdidos pelas ruas; todos eles aguardando o futuro, o futuro retorno do rei.

Algumas horas depois Lampião observou um sem número de pessoas - quase toda a população  -, subindo a colina à espera do navio do rei. A aldeia ficou quase deserta; o menino caminhou mais um pouco e encontrou uma casa bem construída e bem cuidada, o inverso de tudo o que havia visto até aquele momento. Em frente à casa havia uma forja, e nela o ferreiro transformava os metais em ferramentas de trabalho.

- Bom dia ferreiro - falou Lampião.

- Bom dia menino. Seja bem vindo a Aldeia da Negação.

- É este o nome do lugar ferreiro?

- Sim menino, é este o nome.

- Ferreiro - tornou a falar Lampião -, você não vai aguardar o retorno do rei?

- O rei partiu para terras distantes há muitos anos menino e morreu por lá; seu navio retornou com alguns sobreviventes que contaram toda a história.

- Não compreendo ferreiro, não compreendo... Por que então toda a gente sobe diariamente a colina à espera dele.

- Porque todos eles menino, todos eles, sofrem da doença da negação.

- Doença da negação?

- Sim... daí o nome de nossa aldeia. Eles não conseguem admitir que o rei morreu, seria muito duro para eles, então, no mais profundo de seus corações, na vã tentativa de fugir dos sofrimentos naturais da vida, bem como de suas próprias responsabilidades, eles negam a morte do rei, e todos os dias sobem a colina aguardando o seu retorno.

-Ferreiro, quando o rei morreu?

- Faz muito tempo Lampião, antes mesmo do meu nascimento, no tempo em que meu falecido avô era ainda uma criança.

- Mas ferreiro, a aldeia está em franca decadência. Por que então você não reúne todos, e diz para eles a dura verdade.

- Isto seria inútil Lampião. Já tentei, vários outros já tentaram, tudo em vão... eles não conseguem, ou mesmo, não querem encarar a vida como ela é, preferem então viver no passado, quando havia abundância com a presença do rei, ou ainda no futuro, quando supostamente o rei retornará; todos eles menino, vivem em constante estado de  auto-engano.

- Então Ferreiro, eles estão todos entorpecidos e adormecidos, como se tivessem sob o poder de um grande feitiço, deixando toda a realidade quase que no mais total abandono?

- Sim Lampião, exatamente isto; Por esta razão o ar de decadência de toda a aldeia. O "feitiço" somente poderá ser quebrado com a dor e com o tempo, ou ainda, o que seria melhor, com o desenvolvimento da capacidade de amar em cada um deles. 

Lampião despediu-se do ferreiro, e partiu; antes de retornar para sua casa resolveu subir a colina a fim de dar uma espiada. Lá do alto observou toda aquela gente sentada com o olhar perdido no horizonte, completamente absorta do momento presente. Lampião notou que o olhar de cada um deles era um olhar vazio e sem expressão, um olhar desprovido de vida e esperança, um olhar perdido na grande vastidão do mar, aguardando em vão o retorno do grande rei.

Lampião, por sua vez, contemplou embevecido aquela imensidão azul; sentiu o vento e o delicioso cheiro do ar marinho, e a realidade daquele instante era tão presente, que emocionado, ele chorou; percebeu então que suas lágrimas eram tão salgadas como as águas daquele imenso mar.

- Fim - falou a criança.

O Moço das Letras não conseguia acreditar naquela experiência; a história era tão parecida com as histórias que ele mesmo escrevia, o estilo, a forma... Como aquela criança podia conhecer tudo aquilo?

- Gostou da história Moço das Letras?

- Sim, gostei muito. 

- Já há muito tempo venho contando histórias de meninos para você.

- Como assim criança, como assim? Quem escreve as histórias sou eu.

- Tal como esta que foi escrita agora?

- Sim... - respondeu o Moço das Letras com um ar de dúvida em sua mente.

- Moço, eu sempre estive do seu lado nas histórias, e narrei cada uma delas para você, conforme fizemos hoje.

- Se é assim criança, por que então eu nunca notei a sua presença do meu lado?

- Porque Moço, você ao longo de sua vida, tal qual os aldeões da Aldeia da Negação, sempre negou a minha presença.

- Não é possível isso, não acredito.

- Continua negando Moço? Menino Alecrim, Menino Lampião, Luz, feiticeiro Queirós, Príncipe Zinho, Rei Zão, Rei do Então, Bruxa Vassorilda... todos eles foram trazidos por mim até os seus ouvidos, e daí para o papel, todos eles, sem exceção. 

- Meu Deus! - exclamou o Moço das Letras.

- Neste exato instante Moço, você percebe a minha presença; consegue me observar e pode mesmo, se quiser, me tocar. Ao longo de todo estes anos eu sempre estive do seu lado, porém, somente no dia de hoje você despertou, parou de negar, abriu as portas de suas emoções, descortinou seu mundo de sombras, e finalmente notou a minha presença.

- Criança bendita, de onde você veio afinal de contas?

- Não vim de nenhum lugar moço, pois nunca deixei de estar.

- De estar onde?

- Dentro de você Moço das Letras, dentro de você... no mais fundo do seu ser; é neste local que eu habito, e sempre habitarei, desde o dia do seu nascimento até a sua velhice e morte. 

- Quem é você criança maravilhosa, quem é você?

- Sou a sua criança interior Moço das Letras, seu melhor amigo, e mesmo quando a velhice bater à sua porta, continuarei sempre criança, sempre alegre, sempre presente, sempre feliz... pois este é o meu estado eterno de ser, independentemente de quaisquer circunstâncias.

O coração do Moço batia de contentamento, inacreditável aquilo tudo... Fechou os olhos por alguns instantes e refletiu sobre tudo aquilo que havia acabado de ouvir; tudo fazia sentido. Quando, minutos depois, saiu de suas reflexões e procurou pela criança, não havia mais ninguém ali na copa. Teria sido um sonho? Olhou na tela do computador e o texto ditado estava todo lá, desde o título até o seu final; certamente ele não havia sonhado. 

Fechou novamente seus olhos e instantes depois se viu numa alta colina na beira de um imenso mar, juntamente com muitos outros, que como ele, buscavam algo no horizonte distante. Então, depois de algum tempo, lá longe, onde o céu encontra o mar, ele viu algo, algo extraordinário; seu coração transbordou de alegria e ele gritou para todos: Olhem, olhem lá, lá longe, estou vendo, estou vendo...

- O navio do rei? - perguntaram todos ali.

- Não, não vejo navio nenhum, vejo apenas uma criança maravilhosa e sorridente, uma criança interior acenando para mim.

Todos os aldeões no alto da colina viraram as costas para ele, deveria estar ficando louco, não havia nada no horizonte distante, mas certamente, mais ou menos dia, o navio do grande rei regressaria.

O Moço das Letras, por sua vez, contemplou embevecido aquela imensidão azul e a criança ao longe; sentiu o vento e o delicioso cheiro do ar marinho, e a realidade daquele instante era tão presente, que emocionado, ele chorou; percebeu então que suas lágrimas eram tão salgadas como as do menino Lampião que estava ali do seu lado, juntamente com sua inseparável amiga, a Luz.





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