A Bola Vermelha

O menino sonhava em ser um grande jogador de futebol. Na sua infância, lá pelos anos 70 haviam no país jogadores extraordinários, Pelé, Rivelino, Gerson, Ademir da Guia e muitos outros, e o garoto desejava treinar muito e quem sabe, no futuro ser também um grande craque. Mas o caminho dele era outro, ele era muito esforçado, corria bastante, era aplicado, porém, era muito, muito limitado tecnicamente, lá no bairro da Mangueira onde cresceu, dentre todos os meninos, era considerado sem nenhuma sombra de dúvidas o pior de todos, portanto, sem chances de ser no futuro um jogador de futebol, talvez, quem sabe, um gandula. Devido a sua limitação técnica, para não sobrecarregar os companheiros, ele jogava sempre na defesa, basicamente, quando a bola chegava perto dele, dava uma chutão para frente, a fim de afastar o perigo de gol, dificilmente dava um passe com qualidade, e fazer gol então, era algo quase impossível diante de tamanha limitação. E um dia o menino e os seus colegas foram no bairro vizinho, o Paraíso, jogar uma partida com a meninada de lá, o tal do "time contra", jogo duro, importante, a rivalidade entre os meninos da Mangueira e os do Paraíso era bem acirrada. E o time da Mangueira entrou em campo com os seus talentos, e também com o limitado zagueiro chutador, o Paraíso era longe, nem todos os meninos foram, e portanto sobrou uma vaguinha para o perna de pau. E o jogo estava em andamento, bola para lá, bola para cá, e na dinâmica do jogo, o pior jogador do mundo foi aproximando-se da área adversária, e de repente um cruzamento da ponta direita, a bola, vermelha era a sua cor, cruza a área adversária, os zagueiros falham, a bola sobra limpinha para o menino que chuta com todas as forças de suas pernas, de sua alma, de seu coração, e a bola passa pela linha fatal e entra, e é gol, gol do pior jogador do mundo, que sai lá no alto daquele morro, daquele pasto, feliz, pulando de alegria, abraçado pelos companheiros, foi gol, foi gol, gol do perna de pau, que naquele momento era, quem sabe Mané Garrinha, Jairzinho ou mesmo o Pelé. E passados muitos anos, até os dias de hoje, ainda está viva na memória do menino aquele dia extraordinário, em que ele, em um campinho de terra batida no alto de um morro distante fez um gol, que coisa maravilhosa é fazer um gol.

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