Bateria Recarregada
Segunda feira, 7:15 horas da manhã, o agricultor está no ponto de ônibus, esperando pelo 217 ou 226 que vai levá-lo até o seu trabalho lá na cidade. O carioca não diz "vou ao centro", ele diz, "vou à cidade", e é na cidade que o agricultor trabalha. Depois de passar 2 dias no interior, de pisar no chão, cuidar de plantas, andar pelo mato, coletar sementes, cuidar das árvores, reencontrar os parentes e amigos, é chegada a hora de encarnar o seu lado urbano. Seus pés, agora, não mais descalços pisam sobre as pedras portuguesas, tão comum no Rio de Janeiro, daqui a pouco o ônibus vai passar, como ainda é bem cedo, provavelmente ele vai sentando, podendo desfrutar da paisagem urbana, passará pela Praça da Bandeira, seguirá em seguida pela Avenida Presidente Vargas, na altura da Central do Brasil, cruzará o Campo de Santana, passará pertinho, pertinho da Igreja de São Jorge, como o agricultor urbano, tal como os cariocas de um modo geral gostam de São Jorge, Saravá Ogum, logo em seguida estará aproximando-se da zona mais central da cidade, chegando na Avenida Rio Branco, seguindo um pouquinho mais, e desembarcando onde o Rio é mais Carioca, na esquina da Rua da Carioca com o Largo da Carioca, bem pertinho do convento de Santo Antônio, construção antiga, com mais de 400 anos. O escritório do agricultor fica na Rua Uruguaiana, e o nome do edifício é o mesmo do largo, ou seja edifício Largo da Carioca, no seu entorno inúmeros oitis, a árvore mais plantada na região central da cidade. O agricultor sobe e vai até o décimo segundo andar, chega, abre a porta, o trabalho vai começar. Nada de enxada, cavadeira, sementes, cachorrinhos vira latas, nada disto. Aqui computador, caneta, telefone, papel, internet... Uma vida urbana para um agricultor urbano. De vez em quando ele dá uma espiadinha pela janela, avista às vezes o céu, e sente uma profunda saudade dos pés descalços, dos pés no chão...
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