O Voo da Andorinha

Ah Mamãe se eu soubesse naquele dia que aquele seria o último abraço, certamente a teria abraçado com mais afeto e carinho, teria sido mesmo um abraço eterno de amor e gratidão... Ah se eu soubesse da sua partida próxima, talvez tivesse ficado mais um pouco, ou mesmo a noite inteira, ou ainda por toda a eternidade, pois sua presença me enchia de alegria, e o amor que irradiava do seu coração muitas vezes chegava às regiões desérticas de meu ser, transformando terras áridas da emoção em oásis de esperança... Ah costureira querida, se eu soubesse, naquele dia teríamos falado mais sobre suas queridas rosas e antúrios, falaríamos também sobre aquele dente de alho que a senhora cortou ao meio e plantou dias atrás, ensinando-me como se fazia lá na roça, teríamos conversado um pouco sobre aquela sua gatinha branca que um dia sumiu, e depois, com suas orações e fé inabalável, retornou, enchendo o seu coração de alegria, ou ainda que a senhora, através da alquimia do amor, transformou mamão verde em abobrinha, refogou e deu para o meu filho, o seu neto, que comeu e adorou aquela abobrinha mágica preparada pela vovó. Ah mãe amiga, quem sabe, se eu soubesse, poderia esticar um pouco mais a visita, e lembrarmos daqueles tempos que se foram, do nosso galinheiro, das galinhas carijós, das brancas, daquela que botava um ovo azul, tão bonito, dos pintinhos que compramos na casa do fazendeiro e criamos até que ficassem grandes e bonitos... Poderíamos mamãe falar das camisas que você preparava para mim, com retalhos de tecidos de seus cliente, algumas quadriculadas, outras com listras verticais, com cores misturadas, como eu amava aquelas camisas mamãe, saiba que, nunca encontrei nada igual em nenhuma loja, coisa fina mamãe, tecidas com o seu amor. Mas como eu ia saber mamãe, a senhora, acho, delirava um pouco, mas mesmo assim estava tão preocupada com o seu Sebastião, com o seu jantar e o seu bem estar, sempre foi assim mãe, como a senhora amou aquele caminhoneiro solitário, companheiro de toda uma vida... Eu teria ainda contado para a senhora mamãe, as aventuras do seu neto que estava naqueles dias muito ao norte, lá na terra dos ursos polares, a fim de amenizar um pouco a sua saudade, só Deus sabe como a senhora amava aquele menino...E a senhora mãe, naquele domingo ao entardecer, com o sol se pondo lá no oeste, falava para mim das crianças que a visitavam, e eu, tolo, não percebia que os anjos do céu já estavam por ali te confortando por todo o amor que doastes ao longo de toda a sua vida... Se naquele domingo mamãe, a senhora me falasse que iria voar, eu certamente, por amor, ou egoísmo,  faria de tudo para detê-la mais um pouco, fechando a porta da gaiola por onde as almas partem no final da jornada, mas Deus é sábio mãe, ele, delicadamente vendou os meus olhos, e deixou que eu fosse com a promessa de voltar na semana seguinte, e então mamãe, na volta diria para a senhora com toda a alegria, como na infância, mamãe o alho brotou, mamãe o alho brotou, porém mamãe, seu comprido tempo estava cumprido, estava na hora da andorinha sair da gaiola e voar, voar para o alto, para muito alto, voar para o infinito, para a terra do amor, voar para aquele local onde a porta é estreita e somente entram aqueles de alma simples e puros de coração, ou ainda as andorinhas e os demais pássaros do céu. 

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