O Regador Divino

E o agricultor ia fazendo a semeadura, estava contente, muitas e muitas mudas começavam a brotar, e cada novo broto era uma promessa de uma nova árvore, e isto o deixava bastante feliz. A primavera começava a chegar, aos poucos ia esquentando, e as plantas precisavam ser regadas com regularidade, caso contrário, muitas poderiam morrer, principalmente as mais novas. E como ele não podia estar com as plantas todos os dias, pois trabalhava noutra cidade, a mais de cem quilômetros de distância, fazia as regas nas sextas, sábados e domingos, nos outros quatro dias ele torcia muito para que elas suportassem a ausência de água e carinho, pois ele amaria estar ali todo dia, mas ele sabia também que o pão não caia do céu, ou seja, precisava trabalhar. Para segurar a umidade nos saquinhos, ele misturava terra com folhas e este processo vinha dando resultado, o número de baixas de mudas era relativamente baixo, mesmo nos dias mais quentes de verão, e além disto, as plantas ficavam sempre à meia sombra, sob a copa de árvores que estavam crescendo. Mas apesar de tudo isto, algo preocupava o agricultor no momento, ele precisaria fazer uma viagem, e ficaria doze dias fora, será que as plantas aguentariam aquele período sem água, pensava ele preocupado... E no domingo à tardinha, pouco antes dele ir embora, foi ao viveiro e molhou todas aquelas mudas, jogou mais água que o de costume, e enquanto ia molhando, ia pedindo ao seu Deus que cuidasse daquelas plantas, o amor que ele sentia por cada uma delas era muito, muito grande, e cada perda viria a doer muito em seu coração, coisas de pessoas da terra, coisas de agricultor. E ele partiu de coração partido, estava apreensivo, as chuvas da primavera ainda não haviam chegado, já estava começando a esquentar, elas resistiriam, perguntava ele de si para si. E depois de algum tempo o agricultor estava muito longe, a centenas de quilômetros de distância, não havia mais nada a fazer, mas lá no fundo do seu coração ele pensava nas suas crianças verdes e pedia ao Senhor da Vida para cuidar delas na sua ausência, e os dias foram passando, e onde ele estava chovia todos os dias, chovia muito, o rio Itajaí Açu bem como o Itajaí Mirim estavam transbordando, uma beleza, as várzeas estavam cheias d'água, uma maravilha, naquele local o verde aflorava por todos os lados. E depois dos doze dias, que para ele mais pareceram doze anos, ele voltou para a sua casa, chegando foi saudado pelos inseparáveis vira latas Billy, Nina, Tição e Míuda, bem como pela Jully, a Puddle, estava feliz pela volta e ainda apreensivo, foi então à passos largos para o quintal, e quando ele avistou as plantas, um sorriso de orelha a orelha invadiu o seu rosto, seu coração agora batia forte, batidas de gratidão, todas as plantinhas estavam lá, verdinhas, verdinhas, nenhuma havia se perdido, na sua ausência, havia chovido, ou seja, o Regador Divino ouviu as suas preces e com seu infinito amor  regou todas as plantas do seu quintal, bem como todas as outras de muitas cidades vizinhas. E agora o agricultor já mais tranquilo, andando pelo mato ria de si mesmo, pensava na sua falta de fé, e à sua mente vinha uma frase que ele havia lido em um livro: "Solte-se e entregue se a Deus". Este era mesmo um exercício que ele passaria a praticar dali em diante, valia mesmo a pena confiar, pensava ele mais uma vez.

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