Eu, Lolô

Eu, robô? Não querido Isaac Asimov, não... Eu, Lolô! Já vivi muitos anos como robô, muitos anos... confesso que foi necessário, foi o jeito que eu encontrei para sobreviver, mas agora não quero mais o Eu, robô, agora eu quero o Eu, Lolô. O robô, Asimov, era profundamente mental e infeliz, e tentou ao longo de tantos e tantos anos viver de forma independente do Lolô — como se isto fosse mesmo possível , e além de tudo isto, era mecânico, frio e metálico, e como tal, adquiriu ferrugem mental e emocional, e finalmente emperrou. 

Pensando ainda como robô, a poucos segundos antes do ferro velho de minha falência metálica — que coisa extraordinária , achei que era o fim do robô em mim e de tudo o mais, mas não era, era tão somente o começo, pois, muito além do robô pensamento, descobri o Lolô sentimento, ou melhor, redescobri o Lolô, pois ele nunca deixou de ser e existir, apesar do pensamento contrário do robô. 

A encrenca toda ocorreu Asimov, há muitos anos, lá na minha infância, em uma bela tarde de verão, sob a sombra de uma frondosa mangueira na casa do meu avô — claro que isto é coisa de poeta. Neste fatídico dia, em detrimento do Lolô, que eu achava que não daria conta da vida, pela sua profunda sensibilidade e fragilidade, acabei criando e programando dia a dia o robô  ele passaria a controlar absolutamente tudo , até finalmente esquecer completamente da existência do Lolô

Então Asimov  coisa muito louca , quando o robô estava exaurido e já não aguentava mais controlar tudo na vida — absolutamente inútil e insano o controle , quando estava exausto de tanto pensar, calcular, raciocinar, programar, racionalizar; quando estava finalmente cansado da vida robótica, com sua bateria de cérebro eletrônico com carga de menos de meio por cento, já piscando a luzinha vermelha para finalmente apagar, eis que nesta hora do ocaso surgiu na sua tela mental a doce lembrança do Lolô, que corria livremente pelos quintais de sua infância, alimentando as galinhas da terra e os passarinhos do céu, subindo nas árvores, jogando bolinha de gude, soltando pipa nos campos...  — que imagem extraordinária Isaac Asimov, foi efetivamente o fim do robô. 

Asimov, fiquei maravilhado naquele instante, maravilhado... o Eu, Lolô, chegou perto de mim — o Eu, robô, em estágio terminal —, e amorosamente falou aos meus ouvidos: Você não é o Eu, robô, isto é apenas uma ilusão. Você tem vivido como um robô, por ter perdido o contato comigo, a sua Criança Interior, o seu Eu, Lolô; você vem comportando-se como um robô, por não ter confiado em mim, tentando desesperadamente proteger-me das agruras do mundo, escondendo-me dentro de você mesmo. Sempre estive ao seu lado aguardando o esgotamento do seu Eu, Robô, para finalmente manifestar-me como Eu, Lolô. 

O Eu, Lolô, não sente angústia, não tem em si o vazio de viver, e desconhece a depressão  tudo isto são atributos do seu Eu, Robô.

O Eu, Lolô, é alegre, espontâneo, confiante em Deus, sincero, humilde e leve como um passarinho.

O Eu, Lolô, desperta todos os dias para a existência e possui uma força que jamais se esgota, vive um dia de cada vez, e é imensamente grato pelo momento presente. 

De agora em diante, seguiremos juntos, pois, derretida a máscara ilusória que você usou durante tantos anos, o seu Eu, robô, você finalmente perceberá que eu e você somos apenas um, nós somos únicos, nós somos mesmo o Eu, Lolô. 

Asimov, neste instante finalmente a luzinha vermelha da bateria apagou, bem como o meu Eu, robô.

PS: Isaac Asimov, escritor russo naturalizado americano, autor, dentre tantos livros extraordinários, de: Eu, robô.

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