Estrelas no Chão

Naquele dia de julho ensolarado e de céu azul, apesar do inverno, o Agricultor Urbano na cidade grande andava na entrada da vila de cabeça baixa, olhando atentamente para o chão. Cotidianamente quando saia para o seu urbano trabalho, ele tinha por hábito olhar para o alto, para o céu, para as encostas próximas, para as árvores... não naquele dia, porém.

Ali na entrada da vila onde morava, caminhava a passos muito lentos, olhando atentamente entre as frestas das pedras do calçamento à procura de algo... Depois de muitos passos e quase desistir da procura, já próximo ao portão que dava acesso à rua, finalmente encontrou o que tanto buscava. 

Havia no acesso às casas da vila uma linda embaúba preta, contudo, naquela manhã, para pesar do seu coração, ele percebeu que ela havia sido cortada, e avistou ainda pelo chão algumas de suas folhas e pequenos galhos dispersos pelo vento. Doeu a ausência de sua amiga lá na beira daquele muro, então, mesmo com o coração dolorido passou a procurar pelo chão, quem sabe, alguma pequenina muda, ele sabia por experiência própria, que as embaúbas gostavam de brotar por entre as frestas das pedras cobertas de limo e umidade. 

Seu achado encheu o seu coração de alegria, olhando um pouco mais, descobriu ainda outras duas mudinhas, e então, feliz como um menino, improvisou e encheu três copinhos descartáveis com a terra da cidade maravilhosa, e nestes plantou os rebentos de sua falecida amiga, com a promessa de levá-los para o campo no próximo verão. 

Para o Agricultor Urbano a entrada da vila jamais seria a mesma, aquela árvore tão bonita deixaria eternas saudades em seu coração, como um amigo que parte para sempre, todavia, naqueles três pequenos copos havia a esperança de que a presença de sua companheira pudesse ser perpetuada, havia a esperança de que aquela árvore na beira do muro não havia crescido em vão, pois, pensava o agricultor, enquanto existir sensibilidade humana, jamais deixarão de existir árvores, em quaisquer beiras de muros, qualquer que seja a cidade do mundo, maravilhosa ou não. 

Seguiu então o Agricultor Urbano para o seu trabalho, poderia doravante continuar olhando para o alto, para o céu, admirando o brilho dos astros, porém, jamais deixaria de continuar olhando para o chão, onde pisavam os seus pés, pois costumeiramente ali ele também encontrava estrelas que brilhavam intensamente dentro de seu céu interior, enchendo de contentamento o seu coração.


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