O Campo Abandonado

Era vez um homem abandonado que encontrou um campo abandonado também. O abandono do campo era muito grande, onde outrora crescia um bem cuidado cafezal, circundado por um belo cafezal, jabuticabeiras, pitangueiras, bananeiras, mangueiras e outras plantas mais, agora grassava somente o capim, que lentamente, dentro de sua ignorância, ia pouco a pouco sufocando tudo, trazendo para o campo o ar da mais profunda desolação.

Então o homem abandonado lembrou-se de que no passado aquele campo era cuidado por um lavrador que havia partido para sempre, deixando órfão o seu amado pedaço de chão. Como o homem abandonado conhecia em si mesmo o abandono, e o abandono doía, resolveu então adotar aquele campo, e desde então passou a cuidar dele com o mesmo zelo e carinho do zelador anterior. 

Dia após dia ele foi aos poucos retirando o capim inculto, cuidou ainda de cada árvore remanescente, plantando também muitas outras, e com o passar do tempo o campo ficou novamente bonito, vivo e florido, os pássaros e os insetos voltaram, a vida multiplicou-se em profusão, a beleza era agora novamente presente. 

Feliz da vida com o resultado do seu trabalho, o homem percebeu alegremente que não sentia mais o seu velho e próprio abandono, descobriu que na verdade, ao longo de todo aquele tempo, enquanto ele cuidava do campo, o campo, silenciosamente, também cuidava dele, e contam que desde aqueles dias nasceu entre aquele homem e aquele campo uma amizade profunda, cheia de carinho mútuo e gratidão, sem nenhum lugar par o antigo abandono, de parte a parte.

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