Tantas Marias Cheias de Graça

Berçário da Floresta
Devo tanto a tantas Marias que cruzaram o meu caminho. Onde andará Dona Maria de Lourdes, aquela professora primária, que me ensinou tanto, naquela escola pobre de madeira na beira do córrego. Ensinava com simplicidade e carinho, sua presença ainda hoje, tantos anos depois ainda permanece presente dentro de mim. Nunca mais a vi, que saudades, Dona Maria de Lourdes, ou Dona Maria do Saber...

Dona Maria Fubica, mais preta que a mais escura das noites, olhar manso, suave, coração profundo, transbordante de tanto amor, quantas e quantas vezes a Senhora me benzeu, me abençoou, pinçou as feridas de minha alma, me acolheu, me deu doces de Cosme e Damião. A Senhora partiu deste mundo, viveu 100 anos, foi amiga de minha avó, a Francisca. Na minha casa tenho um sino e uma imagem de Vovó Benedita, bem como um cachimbo, coisas que a Senhora utilizava para minimizar as dores dos outros, que beleza a Dona Maria Fubica, a Maria que via os seres do outro mundo, a Dona Maria de Luz...

Dona Maria Rosa, que saudades. Quantas e quantas vezes fui na sua casa para a Senhora me rezar, lembro-me como se fosse agora, eu era pendurado no pé da laranjeira, a Senhora fazia algumas orações, e eu ficava leve feito um passarinho, feliz da vida. Como haviam árvores na sua casa tão simples, lembro-me do pé de jambo rosa, transbordante de tantas flores e tantos frutos, lembro-me de sua mansidão e do dia de sua partida, partiu deste mundo de forma suave, tal como sua própria vida, deixando um rastro de amor no coração de todos aqueles que a conheceram. Que saudades Dona Maria Rosa, ou Dona Maria do amor...

Dona Maria do Seu Isaac, que saudades da Senhora. Inteligente, olhar profundo, cheia de amor. Sendo tão rica ia à casa de meus pais, tão pobres, de uma forma muito simples, pois simples era a sua alma. Eu sei que a Senhora escrevia cartas para aquelas moças da vida lá na cidade de Barra Mansa, e deixava o seu próprio endereço como base da correspondência, sei que viveu la na Polônia, que ficou presa em campo de concentração, que sofreu os horrores da guerra, porém, nem isto tirou da Senhora sua majestade interior, seu imenso amor por todos, seu sorriso profundo e acolhedor. Se um dia eu morrer, e existir um Paraíso para os justos, e se a Senhora lá estiver, e se o Paraíso for somente para os da tribo de Israel, pedirei licença a Abraão, Isaac e Jacó, pedirei que me deixem entrar somente um pouquinho, para olhar para a Senhora, e dar-lhe um grande e apertado abraço de gratidão. Dona Maria do Seu Isaac, ou Dona Maria da Paz...

E dentre tantas Marias ainda tem aquela da casa das quatro Marias, a Maria premiada, aquela que me acompanha a mais de 30 anos, companheira, amiga, na época de estudante, quantas e quantas vezes fui salvo da fome por aqueles grãos de bico com arroz integral, lá na ilha do Fundão, Maria de olhar verde e profundo, Maria da simplicidade, Maria tão cheia de amor pelos meus pais, Maria meiga, Maria estudiosa, Maria quase que louvada por tantos e tantos pacientes pobres, que necessitam e gostam tanto da sua presença, Maria que gosta dos bichos, Maria que gosta de gente, Maria tão inteligente, Maria que eu enfeiticei com um copo de suco de caju, Maria que me enfeitiçou com os livros do Buda, com as músicas suaves, com as estrelinhas brilhantes de papel pregadas no teto, Maria Estrela, Maria simplicidade...

São tantas Marias, cheias de graça, cheias de luz, cheias de Deus...

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