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O Agricultor, a Semente, o Broto e a Voz

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O Guapuruvu  ( Schizolobium parahyba),  é uma árvore nativa da mata atlântica, e sua semente, tão dura quanto uma pedra, pode demorar muitos meses para germinar. A futura árvore, em estado potencial no interior do seu invólucro, de alguma forma  obedece plenamente a uma  sábia voz interior, determinando o momento do fim da dormência e o princípio do processo de germinação, quando a sorte é finalmente lançada, sem possibilidade nenhuma de retorno  —  isto não é uma afirmação atestada por rigorosos padrões científicos.  "Aguarde mais um pouco, agora é inverno", diria a voz para a árvore virtual; "este ano teremos um grande período de seca, não germine ainda", continua soando a voz, ou ainda "você está em um terreno pedregoso, aguarde o andar dos acontecimentos." A semente confia plenamente na sua voz interior, e permanece adormecida, confortável e segura, tal como uma criança no colo de sua amada genitora  — em decorrência do silêncio das crianças,...

A Criança Interior e o Agricultor Urbano

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Tenho alma de agricultor, porém, nasci, fui criado e educado em cidades cercadas de casas, prédios, ruas asfaltadas, viadutos... apesar de tudo isto, o agricultor em mim jamais me abandonou, então, com o passar do tempo e a pertinaz insistência do homem da terra, acabei transformando-me em um Agricultor Urbano.  Hoje, dia de Natal, acordei cedinho;  um pouco antes de pegar minhas ferramentas,  vi lá uma certa criança num canto da casa. Ela olhava com olhar distante a chuva tamborilando na vidraça da janela, e seu olhar era um olhar distante, um olhar de saudade e de vazio. Cheguei devagarinho perto dela e toquei na janela, e ao tocar, ela olhou para mim. "Vamos lá fora brincar na terra criança!", disse eu. "Eu gosto da chuva e da terra", falou a criança; "eu também gosto", respondi para ela, enquanto saíamos juntos em direção ao quintal, acompanhados pelo meu fiel vira lata Tição. "Eu gosto de quintal e de cachorro vira lata", comentou a criança ...

Domingo No Parque

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Era uma vez um domingo, um menino com saudades do pai distante, e um parque de diversões; naquele final de tarde ele finalmente iria até lá. Naquela época, no local onde vivia o menino dinheiro era algo muito raro de encontrar, muito difícil de ganhar, e muito fácil de gastar. Mas finalmente o menino tinha em mãos três dinheiros: O dinheiro de ida no lotação até o parque; o dinheiro para brincar em um dos inúmeros brinquedos, e o dinheiro de volta para a sua casa na condução — os contemporâneos do menino chamavam o ônibus de lotação ou condução. O desejo do menino era gastar todo o dinheiro nos brinquedos, mas o parque era longe, então, já no lotação quase vazio e, com um dinheiro a menos no bolso, ele ia pensando em todos aqueles maravilhosos brinquedos, já brincando mesmo com cada um deles em sua fértil imaginação. Vinte minutos depois e com dois dinheiros no bolso, o menino estava no parque, e no parque música, balões coloridos, pessoas falando por todos os lados e ao mesmo tempo al...

Os Baldes da Esperança

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De vez em quando, nas suas andanças, o Agricultor costumava encontrar pelos seus  públicos bosques velhos baldes comumente utilizados na construção civil  —  baldes sem alças, com alças, inúteis, rachados, furados, desprezados, abandonados... Para muitos aquilo não servia para nada, mas o Agricultor recolhia-os, um por um. Vozes mudas  — se existe um Agricultor Urbano invisível  e anônimo, não é improvável então a existência de mudas vozes  —  olhando aquela cena corriqueira e insólita diziam: "Ele não é muito certo da cabeça; ele gosta de juntar entulho; ele não tem nada mais interessante para fazer; ele é muito estranho; ele deve trabalhar com plástico reciclado...". Um dia, notando tudo aquilo, enquanto brincava na praça próxima ao bosque, uma criança comentou com a sua mãe: —   Mamãe, o Agricultor não chuta os baldes! lá vai ele com os seus velhos baldes cheios nas mãos. A mãe observou a cena e não comentou absolutamente nada; cada um daquele...

O Agricultor e a Foice

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Naquela manhã de sábado, como de costume, o Agricultor Urbano estava ceifando o capim a fim de plantar algumas árvores; seus vira latas estavam presentes, como sempre, mas neste dia ele também foi agraciado pela presença de uma vaca de olhar profundo e amistoso, que ficou por ali pastando o seu capim em paz. A hora avançava, quando finalmente passou um curioso cidadão pela rua próxima e, detendo-se, ficou observando o Agricultor com sua foice na mão, na companhia de seus próprios vira latas e da vaca alheia. Aquele homem já reparava no trabalho solitário do homem do campo por muito tempo, e estava muito desejoso de conhecer um pouco mais a respeito da natureza mental dele, pois considerava sua lida solitária em áreas públicas algo um tanto o quanto insólito — quem sabe problemas psiquitriaticos graves? — Bom dia senhor Agricultor... — Bom dia senhor... — respondeu mansamente o Agricultor. — Poço fazer lhe uma pergunta? — Sinta-se a vontade... — O que te faz muito feliz? A resposta foi ...

O Agricultor Urbano Nos Tempos da Pandemia

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Um jornalista da agência Reuters publicou na manhã deste domingo uma foto, afirmando que finalmente conseguiu fotografar o jamais visto Agricultor Urbano. Segundo o jornalista, a foto foi tirada bem cedo, nas proximidades de uma mata onde todos dizem que vivem o anônimo agricultor. Caso seja confirmada a veracidade da foto e do fato, o jornalista passa a ser um grande candidato a  receber o próximo Prémio Pulitzer. Segundo o jornalista, após ser fotografado, o homem e o cão que estava em seus braços correram em disparada para dentro da mata  —  sofreria o Agricultor Urbano de fobia social?  As controvérsias já começaram... Os especialistas de todo o mundo afirmaram categoricamente, que todos os estudos comprovaram que nas supostas aparições, o desconhecido Agricultor sempre apareceu acompanhado de três cães no seu entorno, e não apenas com um no seu colo  —  seria o Agricultor um urbano cuidador de cachorro vira lata? Policiais americanos ao analisarem a fo...

O Agricultor Urbano e a Erithrina Verna

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Naquela tarde de sábado, tendo terminado a sua lida pelo campo, o Agricultor Urbano parou sua caminhada de volta para sua casa, e então, passando por uma  Erythrina Verna no seu caminho,   admirou com olhar de contentamento lá no alto a sua copa, e no seu ato de contemplar refletiu:  "Como demorou a florir esta árvore... Um dia veio o fogo e a queimou de cima a baixo, restando dela somente as raízes. Então, como a Fênix, ela conseguiu renascer das próprias cinzas, e agora é uma árvore bonita e muito alta. Com suas flores avermelhadas vieram os beija-flores, as maritacas, muitos outros pássaros e uma grande quantidade de sementes. A Erythrina, na sua saúde, não guardou pelo fogo nenhum ressentimento, pois ressentimentos são coisas dos egos humanos, e não das árvores que crescem confiantes servindo a Deus, independentemente de quaisquer circunstâncias". Assim refletiu o Agricultor Urbano  pelos caminhos por onde pisavam as suas botas , ao o bservar com alegria e g...