O Filodendro Abandonado
Domingo bem cedo, o agricultor chega no campo para trabalhar um pouco, esquecer os problemas do dia a dia, desligar-se da rotina da cidade, mergulhar, quem sabe, nos mistérios da terra, ouvir os pássaros, ficar por algumas horas a sós. Vai dando uma espiada pelo terreno, e não demora muito encontra alguns galhos de árvores jogados em cima de plantas recém plantadas, possivelmente obra de algum vizinho da área pública, ávido de ver-se livre de tudo que a princípio não presta, e jogando logo no primeiro lugar em que encontra, insensível ao que possa estar por lá. E o agricultor, pacientemente, vai removendo os galhos de cima das pequeninas plantas em fase de crescimento, quem sabe, pensa ele, daqui a pouco quando as árvores crescerem um pouco mais,passem a ser vistas e, que maravilha, respeitada por todos. E enquanto ia recolhendo os galhos, o agricultor depara-se com um bonito filodendro, arbusto nativo das matas tropicais, ali, jogado também, abandonado mesmo, com suas raízes expostas ao sol, esperando a morte chegar. E ele, na sua simplicidade, sente pela planta compaixão, e exclama de si para si mesmo: "Como pode meu Pai, alguém abandonar assim uma planta à sua própria sorte, que falta de sensibilidade". E enquanto vai observando aquela planta, vai pensando que talvez viva mesmo no país do abandono, aquela mesma área pública em que neste momento ele colocava os seus pés, também era um terreno abandonado, muito capim, lixo, entulho e o descaso de todos, e quantos hospitais, idosos, crianças, praças, jardins, escolas, obras, estradas, rios, lagos, e tantas outras coisas mais também em estado de abandono, algo de estarrecer, pensava o agricultor. Ele recolhe a planta, faz um buraco e a coloca lá, na esperança de que possa crescer e viver em paz. Pega sua cavadeira de ferro, o Valentim, e sua poderosa enxada com cabo de sanção do campo, a Valentina e caminha solitariamente, como um Robson Crusoé, mato adentro, cortando o capim inculto, preparando a terra a fim de que árvores possam ser plantadas naquele terreno tão pequeno, tão bem cuidado, tão amado por ele, que o adotou, excluindo-o da grande lista do abandono geral. Ainda deu mais uma olhadinha para trás, e ficou muito feliz de ver ali plantado um lindo pé de filodendro em uma bela manhã de outono.
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