Uma Crônica Sem Palavras

Naquele primeiro domingo de inverno, o Moço das letras tentava escrever uma crônica, mas por mais esforço que fizesse, nenhuma ideia ocorria-lhe na mente; estariam as palavras fazendo greve? Em determinado momento, ele ouviu uma voz que vinha de dentro, a voz de sua Criança Interior, e a voz, sem palavras, disse para ele: "Procure pelo seu amigo, o Agricultor Urbano, que através dele você escreverá no dia de hoje uma crônica sem palavras".

O Moço das Letras confiava sempre naquela Criança, mas daí a escrever uma crônica sem palavras soava estranho para ele; mais por saudades do velho amigo, do que propriamente pela intuição interior, ele resolveu efetivamente visitar o Agricultor Urbano. Então, como sempre fazia, seguiu simplesmente o rastro verde deixado pelo seu amigo ao longo do caminho, até finalmente chegar à casa dele, naquela colina verdejante onde, a cada metro e meio de distância podia tocar-se em uma árvore ou mais. 

Num primeiro momento ele não encontrou seu amigo por lá; andou um pouco mais, e algum tempo depois ficou muito entristecido ao observar nas proximidades do grande bosque, uma grande moita de bambu completamente cortada. Ele sabia que o Agricultor seria incapaz de realizar aquela ação, e pensou lá com os seus botões que o seu amigo, diante daquele melancólico quadro com os bambus todos mutilados, deveria estar em algum canto por ali, sentado e lamentando toda aquela situação.

O Moço das Letras avistou um pouco mais além uma das vira latas do Agricultor a vira lata Miúda , e resolveu então segui-la mata adentro  onde há fumaça há fogo , até finalmente encontrar o seu amigo no alto de uma colina descampada, completamente solitário no meio daquela imensidão de capim. Foi então até lá para prestar a ele suas condolências pelo incidente com os bambus; ele deveria estar inconsolável.

Chegou devagarinho e observou que seu amigo estava plantando alguma coisa, obviamente que era uma árvore; mas não era! O Agricultor cantarolava uma velha canção, e na cova recém aberta havia uma pequenina muda de bambu, que recebia com alegria um banho de água do velho regador. 

O Agricultor notou a presença do seu amigo ali do seu lado, virou-se então para ele, olhou fundo em seus olhos,  e simplesmente sorriu, e o sorriso profundo traduzia de forma clara e inequívoca força, fé e esperança, um sorriso que, sem palavras, dizia uma infinidade de coisas que nenhuma palavra poderia mesmo alcançar  a Criança Interior estava com razão, refletiu o Moço das Letras, enquanto recebia aquelas poderosas vibrações que irradiavam dos lábios e olhos de seu grande amigo, o Agricultor Urbano.

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