O Menino e a Guaçatonga
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Miúda Sob o Pé da Guaçatonga |
Era uma vez um quintal sem muros que ficava no sopé de um morro onde haviam muitas bananeiras e roseiras, bem como algumas poucas árvores. Era o quintal da casa de um menino, as bananeiras eram frutos do labor de seu avô, e o perfume de todas as rosas eram os frutos do trabalho de sua mãe. O grande amigo do menino era um vira lata, o Camboja, e quase todos os dias os dois andavam juntos pelo quintal, e muitas vezes subiam até o ponto mais alto no limite da propriedade, onde havia um pé de Guaçatonga, que com o passar do tempo passou a ser amigo do menino e do seu cachorro também.
Regularmente, nos finais das tardes, o menino subia o morro e no alto do morro subia no pé de Guaçatonga, e ficava lá em cima solitariamente juntamente com a sua amiga, enquanto o seu outro amigo ficava lá embaixo, muitas vezes cochilando, aguardando o retorno do menino. A árvore e o menino eram de poucas palavras, seres observadores, mas com o tempo e amadurecimento da amizade, passaram então a conversar, uma conversa assim bem baixinha, quase um sussurro, como dois seres profundamente enamorados, um diálogo ininteligível e incompreensível para os doutos e eruditos.
- Guaçatonga, você sempre viveu solitariamente por estes campos?
- Não menino, não. Antes havia uma grande floresta aqui, e eu estava rodeada por um sem número de árvores, minhas irmãs, tudo aqui era muito, muito bonito.
- E para onde foram todas as suas irmãs Guaçatonga?
- Todas elas viajaram menino.
- Árvores viajam Guaçatonga?
- Todos os seres viajam menino, mesmo aqueles enraizados no chão.
- Pode então me falar um pouco sobre estas suas irmãs que viajaram Guaçatonga?
- Claro menino, anote ai..
- Guaçatonga eu não trouxe lápis e papel para escrever.
- Você escreverá então no caderno de seu coração menino, desta forma jamais esquecerá o que eu direi para você.
- Mas Guaçatonga, eu não sei escrever no coração.
- Vou ensinar para você menino. Feche os olhos e apenas observe o vento...
E assim fez o menino lá do alto da árvore, no alto do morro.
- Qual o resultado menino, tornou a falar a Guaçatonga.
- Ah Guaçatonga, é muito bom sentir o vento.
- Muito bom Menino. Agora feche os olhos novamente e concentre toda a sua audição nos passarinhos.
O menino mais uma vez, lá no alto do morro, lá do alto da árvore, atendeu ao pedido de sua amiga.
- O que você percebeu agora menino?
- Ouvir os passarinhos foi uma verdadeira maravilha Guaçatonga.
- Então você acabou de aprender a sentir o sopro do vento e o canto dos pássaros menino. De agora em diante, soprarei, como o vento e cantarei como os passarinhos, e desta forma, tudo ficará gravado eternamente no seu coração. Mas cuidado menino, quando eu soprar e cantar nos seus ouvidos, coloque toda sua alma neste instante e concentre-se, caso contrário a mensagem poderá ficar perdida em algum canto do seu coração.
- A mensagem Guaçatonga, depois de gravada não mais poderá ser apagada?
- Somente o medo de existir menino pode apagar as coisas que estão no coração, somente o medo de existir...
- Então Guaçatonga, eu jamais sentirei o medo de existir em minha vida!
- Você conhece o medo de existir menino?
- Creio que não Guaçatonga, creio que não...
- Cuidado com ele então menino, conhecemos tão somente aquilo que vivemos.
Daquele dia em diante, ao cair da tarde o vira lata e o menino subiam o morro, e enquanto aquele cochilava, este, com o coração transbordante de alegria subia rápido como um macaco lá no alto da árvore, e por lá ficava até o escurecer aprendendo sobre um mundo bonito e verde que havia existido por ali.
- Guaçatonga, é tão estranho o nome do meu cachorro...
- Qual o nome dele menino?
- Camboja...
- Camboja é o nome de um país que está em guerra menino.
- Guaçatonga, por que os homens fazem tantas guerras?
- Para tentarem inutilmente vencerem os inimigos exteriores menino.
- E por que os homens criam tantos inimigos exteriores Guaçatonga?
- Porque menino, eles ainda são incapazes de perceberem que existe apenas um inimigo interior que precisa ser amado e não vencido. Pacificado o inimigo interior menino, morrem então todos os inimigos exteriores, e então cessam-se as guerras e nasce finalmente a paz.
- Guaçatonga, pode me falar agora sobre suas irmãs que viajaram?
- Havia o Jacarandá da Bahia... Uma árvore nobre que crescia nos locais mais secos, produzia uma madeira de boa qualidade e flores perfumadas que atraiam um sem número de abelhas. Anotou ai em seu coração menino?
- Sim anotei... Mas Guaçatonga, porque Jacarandá da Bahia, se aqui não é a Bahia?
- É apenas um nome popular menino, e como a planta ocorre com intensa frequência no Sul da Bahia, acabou ganhando este nome dado pelo povo de lá.
- Havia alguma mais alta do que todas as outras Guaçatonga, uma assim... grande, muito grande?
- Ah, claro. Os Jequitibás eram gigantescos, haviam por estas bandas alguns com mais de dois mil anos e mais de sessenta metros de altura.
- Guaçatonga, fico imaginando eu subindo lá no alto dele. Seria mesmo possível encostar o dedo no céu. E amiga, haviam árvores que cresciam mais rápidas do que as outras, ou todas cresciam mais ou menos da mesma forma.
- Cada árvore menino tem o seu próprio padrão de crescimento, porém algumas crescem muito rápido, são as árvores pioneiras, e dentre estas, uma das de crescimento mais rápido é o guapuruvu, podendo mesmo crescer mais de três metros por ano, principalmente se estiver em solo úmido.
- Nunca vi um Guapuruvu Guaçatonga.
- São árvores imensas menino, você vai conhecê-las um dia, em uma terra muito distante daqui, bem pertinho de uma fonte d'água, na companhia de uma outra criança, e a partir deste dia, você jamais o esquecerá.
- E além das pioneiras Guaçatonga?
- Existem outras árvores menino, as secundárias que crescem um pouco mais do que as pioneiras, e de forma um pouco mais lenta do que estas, e precisam de um pouco de sombra para se desenvolverem; e também as climax, que crescem muito lentamente, são as árvores com maior longevidade na floresta, e precisam da sombra das pioneiras e secundárias, a fim de atingirem a maturidade.
- Mas Guaçatonga, por que as árvores pioneiras crescem mais rápido do que as demais, elas sofrem de ansiedade?
- Ansiedade é coisa dos homens menino. Crescem mais rápidas por amor às demais que precisam de sua sombra. As pioneiras ajudam as secundárias, e estas ajudam as climax, e desta forma surge a floresta.
- Então Guaçatonga, a nobreza de um majestoso Jequitibá está ligado as árvores de menor porte na floresta?
- Sim menino, as árvores formam uma irmandade, onde todas cooperam para o bem comum. Quanto à nobreza menino, isto é uma questão mais humana do que vegetal, na floresta não existem nobres e plebeus, na floresta a nobreza e a riqueza pertencem à todos.
Enquanto a amiga falava, o menino ia anotando tudo nas páginas do seu coração, detalhe por detalhe.
- Você disse Guaçatonga, que o Jacarandá gostava de crescer em locais secos. Algumas de sua irmãs gostavam de crescer em locais úmidos?
- Muitas meninos, muitas... Jabuticabeiras, Pitangueiras, Goiabeiras, Paineiras, e mais um sem número delas... são árvores que gostam muito, muito de água menino.
- Ah Guaçatonga, entendi. Lá perto da casa da Dona Maria Fubica tem um brejo com muitas paineiras. Nunca imaginei que aquelas Paineiras pudessem ser felizes ali naquele brejo tão úmido.
- Elas estão em seu ambiente natural menino.
E assim, durante muito tempo, no final das tardes o menino ia aos fundos do quintal com o Camboja, passava pelas bananeiras de seu avô, sentia o cheiro das rosas de sua mãe e subia o morro, e lá no alto, lá nos fundos do quintal encontrava-se com a sua amiga, e dia após dia ia registrando as lições no caderno de seu coração, enquanto o vira lata ficava embaixo aguardando o seu retorno.
- Guaçatonga, estas sus irmãs que viajaram voltarão um dia?
- Sim menino, muitas delas voltarão.
- Mas Guaçatonga, não entendo como voltarão. Por exemplo, quando vou para escola, na volta retorno no ônibus, as árvores voltarão assim também, através de alguma condução.
- Não desta forma menino, não desta forma.
- Como voltarão então Guaçatonga?
- Muitas voltarão através de você menino.
- Mas como eu poderei traze-las todas de volta Guaçatonga, não consigo entender.
- Menino, no seu bolso cabe uma semente de goiabeira?
- Cabe sim Guaçatonga.
- Então menino, no seu bolso pode habitar um goiabal inteiro.
- Quantas sementes cabem em todos os seus bolsos menino?
- Contando a calça e a camisa Guaçatonga?
- Sim menino.
- Bem Guaçatonga, o bolsos são largos e fundos, foi minha mãe quem fez assim, logo devem caber muitas centenas de pequenas sementes.
- Portanto menino, nos seus fundos e largos bolsos cabem uma pequena floresta.
E assim, dia após dia, maravilhado, o menino ia até o quintal para encontrar-se e encantar-se com aquela amiga, e por lá ficava muito tempo, geralmente até o escurecer, quando as primeiras estrelas despontavam no céu, pois naquele tempo era possível observar as estrelas no firmamento.
- Guaçatonga, perguntou um dia o menino. Por que você também não viajou com suas irmãs?
- Todos tem o tempo certo para a viagem menino, sou uma árvore de pequeno porte, minha madeira tem pouco ou nenhum valor comercial, e então foram deixando-me ficar, e eu fui aos poucos registrando tudo o que acontecia para enfim, transmitir para você. Mas preciso dizer-lhe algo, daqui a pouco tempo viajarei também.
- Então Guaçatonga, você não viajou porque não tinha nenhum valor aos olhos dos responsáveis pelas viagens?
- Sim menino.
- Guaçatonga... Você tem muito valor para mim, e digo mais amiga, o Camboja também gosta muito de você.
- Sim menino... somente conseguem amar aqueles que trazem a simplicidade no coração. Jamais perca sua espontaneidade menino, jamais perca...
- Guaçatonga, quem organizava estas viagens que levaram suas irmãs daqui?
- Um dia você saberá por si mesmo menino, não se preocupe com isto agora.
- Guaçatonga, como conseguiram viajar suas irmãs, que como você, estavam também com suas raízes presas no chão?
- Menino... Existem muitas formas de viajar, até mesmo para aqueles com raízes profundas. Todos os seres vivos também viajarão um dia.
- Ah, se você viajar sentirei muito a sua falta. Mas por que você terá que viajar Guaçatonga, por quê?
- Está chegando o tempo dos muros menino.
- Muros de tijolos Guaçatonga?
- Os muros mais difíceis de transpor são os muros mentais menino.
- Não compreendi Guaçatonga.
- Os muros mentais geram prisões mentais, que geram infernos mentais. No devido tempo você compreenderá menino.
- Guaçatonga, daqui onde estamos podemos avistar ao longe o horizonte, pois não existem muros. Por que então os homens constroem os muros?
- Constroem para se esconderem menino.
- Se esconderem de quem Guaçatonga?
- Se esconderem deles mesmos menino.
- Guaçatonga, estou avistando lá ao longe o morro todo coberto de rosa, muito bonito. São flores de árvores?
- Não menino, é o capim gordura que está em flor.
- E por que as plantas produzem flores Guaçatonga?
- É uma forma de louvação ao criador menino. Assim como os homens constroem templos para adorarem o seu Deus, cada planta produz a sua própria flor no templo vivo da natureza, a fim de também louvarem o divino. Na medida do possível menino, jamais corte uma planta em flor.
Naquele dia o menino subiu mais uma vez a colina a fim de conversar com a amiga, estava frio, o inverno aproximava-se, o vira lata deixou sua casinha de madeira construída pelo menino sob o pé da goiabeira branca, bem perto do galinheiro e da casa, seguindo seu amigo morro acima. E em pouco tempo lá estava o menino, no alto da árvore, empoleirado feito um passarinho, conversando com sua amiga.
- Guaçatonga, em dias frios como o de hoje alguma árvore consegue florir?
- Os ipês são capazes de produzirem floradas de rara beleza nos dias de inverno menino.
- E por que Guaçatonga os ipês dão sua florada nestes dias frios, curtos e escuros.
- Por amor à primavera menino. São árvores de grande resistência, e são capazes de crescem em solos pobres e degradados.
- O que são solos degradados Guaçatonga?
- São aqueles abandonados pelos homens, porém a degradação não está no solo menino.
- Onde está então a degradação Guaçatonga?
- Nos homens menino.
- Guaçatonga, hoje fiz uns poleiros novos para as galinhas de minha mãe, ficou uma beleza.
- Um dia menino, através de você virão milhares de poleiros onde os passarinhos do céu poderão descansar.
- Onde eu arranjarei tantos galhos para construir todos estes poleiros Guaçatonga, o céu é muito grande, são muitos pássaros, terei que derrubar uma floresta inteira.
- Você não terá que derrubar nenhuma árvore menino.
Passaram aquele final de tarde conversando, e quando a noite insinuou-se, e Vênus despontou no céu a Guaçatonga falou ainda ...
- Menino, brevemente terei que viajar, está chegando o tempo dos muros.
- Não entendi Guaçatonga?
- Na hora apropriada você entenderá menino. Escute agora com atenção, quero deixar ainda para você um presente valioso, um presente para toda a vida.
- Sim Guaçatonga estou te escutando. Mas o menino estava chateado e não quis contrariar a amiga, sua mente estava presa na cena em que um homem espancava um cavalo, de forma que sua concentração estava comprometida naquele momento, ele escutava, porém não ouvia, prejudicando o registro.
- Menino, o medo é o carcereiro de sua própria prisão, falou a Guaçatonga...
- Sim Guaçatonga, respondeu o menino, que inconscientemente registrava tudo aquilo em um canto qualquer de seu coração, como algo sem grande importância, comprometendo o arquivamento do presente.
E por um bom tempo a Guaçatonga falou, e o menino com a mente ligada nos maus tratos ao cavalo ouvia de forma desatenta.
- Louvado seja menino, louvado seja... falou ainda a Guaçatonga. Entendeu tudo menino?
- Sim Guaçatonga, falou o menino, mentindo, pois não queria falar de sua distração e dor para a amiga.
- Daqui a pouco tempo viajarei menino.
- Façamos assim então Guaçatonga: Você viaja, e no seu retorno eu abro o presente.
- Independentemente de minha volta menino, é muito importante que você abra, aberto, é um presente para toda a vida, fechado, não terá valor algum.
- Não entendi Guaçatonga, não entendi.
- Não se preocupe por agora, Você entenderá um dia menino...
O menino desceu da árvore e acompanhado pelo vira lata principiou a descer morro abaixo em direção às luzes da casa. Sob a goiabeira vermelha, olhou ainda mais uma vez para a amiga que ainda lhe falou...
- A propósito menino... Você sabe conjugar o verbo Florestar?
- Ainda não aprendi Guaçatonga...
- O dia que aprender menino, conjugue para mim.
- Combinando então Guaçatonga.
- Uma última coisa Menino...
- Sim Guaçatonga...
- Para que você possar dar liberdade ao cavalo, é preciso que você primeiramente liberte o homem que o acoitou, e que neste momento está preso em algum porão dentro de sua alma. Caso você não consiga fazer isto menino, ao longo de sua vida, seu porão ficará repleto de homens de coração endurecido, e você terá muito, muito trabalho para mantê-los todos lá nos seus calabouços mentais.
O menino tinha lágrimas nos olhos, o nome do homem que havia espancado o cavalo era Domingo, e mesmo com a advertência da amiga, Domingo ficou preso em sua mente, e o cavalo perdeu também a liberdade de pastar e correr pelos campos... Por muitos domingos que ainda haveriam de vir.
- Guaçatonga...
- Sim menino...
- Eu te amo muito Guaçatonga, do mais fundo do meu coração.
- Amo você também menino, do mais fundo de minhas profundas raízes.
Chegou um dia então o tempo dos muros...
O local onde o menino vivia passou por uma expansão, novas ruas foram abertas, muitos novos vizinhos chegaram, e com eles chegou também o Senhor dos Muros, que não gostava de horizontes, não gostava de árvores, não gostava de fim de tardes, não gostava de cavalos e liberdade, não gostava de rosas, não gostava de bananeiras e vira latas, não gostava de galinhas e meninos... A única linguagem que o Senhor dos Muros conseguia compreender era a linguagem das barreiras visuais, a linguagem das paredes de concreto, a linguagem dos muros, enfim. E por todos os lugares por onde o Senhor dos Muros passava surgia um novo muro, e assim, paulatinamente o horizonte foi aos poucos desaparecendo, até que finalmente, um dia o Senhor dos Muros visitou o quintal do menino...
No quintal do menino havia um pé de Guaçatonga, que, infelizmente estava no caminho do Senhor dos Muros, e então, de forma muito natural, o muro foi levantado e a Guaçatonga foi tombada no chão sem a menor cerimônia. Era apenas uma Guaçatonga, uma árvore ordinária, sem nenhum valor comercial, sua madeira era tão fraquinha, que nem para caixote servia. E ali naquele dia, naquele quintal, naquela manhã, naquele morro, os serviçais do Senhor do Muro, com os restos da Guaçatonga, fizeram uma fogueira para esquentar um pouquinho o frio dos seus corpos, não contudo, o gelado de seus corações.
Naquele dia o menino compreendeu finalmente para onde e como haviam viajado todas as irmãs da Guaçatonga, e sua dor foi muito grande, e então ele foi lentamente desaparecendo, e aos poucos foi nascendo outro alguém, foi nascendo um homem.
O homem cheio de amargura e revolta interior, esquecendo todas as lições da Guaçatonga para o menino, inconscientemente passou a criar dentro de si mesmo o pior dos muros, o muro mental, e desta forma, pouco a pouco o menino dentro dele foi perdendo toda a capacidade de olhar os horizontes, pois era agora também um prisioneiro daquele novo e poderoso Senhor, o Senhor do Muro Mental, juntando-se ao Senhor Domingo, o Senhor do Muro de concreto e o cavalo. Com o passar dos anos, além destes quatro, muitos outros seriam encarcerados também.
Revela o sopro do vento que tudo isto ocorreu na época da corrida espacial entre os Russos e Americanos, e que somente vinte anos depois destes fatos, com a queda do muro de Berlim, é que aquele homem finalmente constatou a existência do seu próprio muro mental e percebeu, como um alemão oriental preso em sua cortina de ferro, que de alguma forma precisava derrubá-lo também, reunificando novamente sua mente e seu coração. Percebeu então através da dor que nem mesmo um Titã tinha forças suficientes para penetrar naquelas fortalezas interiores, a queda teria que ocorrer de uma outra forma, aquilo não era tarefa para homens intelectualizados.
Cinquenta anos depois da chegada do homem a lua, um homem de meia idade caminhava com um cachorro vira lata no alto de um morro onde crescia uma mata exuberante. Durante sua caminhada, de vez em quando ele abaixava-se, pegava alguma semente e a colocava nos bolsos de sua calça. Naquele morro crescia um grande número de árvores nativas, sem muita dificuldade era possível encontrar paineiras, jacarandás, ipês, cedros, jequitibás, guapuruvus, sibipirunas, paus-brasis, goiabeiras, pitangueiras e mais um sem número de espécies. Aquela mata deveria ser relativamente jovem, talvez uns dez ou doze anos, porém já haviam por ali árvores enormes, algumas com mais de quinze metros de altura.
Aquele homem lembrava com saudades das conversas com sua amiga, a Guaçatonga, e percebia agora, já no outono da vida, que muitas daquelas maravilhosas lições haviam sido resgatadas dos escaninhos de seu coração - aquela mata era um exemplo vivo - aquelas árvores foram plantadas pelas suas próprias mãos, porém, no fundo de seu ser ele percebia que faltava algo que ele não conseguia trazer à tona. O homem sentia em si um certo medo de viver, sentia-se muitas vezes preso em si mesmo, e fazia todo um esforço para buscar os registros da última conversa com a sua amiga.
Conseguia lembrar-se com clareza daquele último dia, conseguia lembrar-se do cavalo, de sua dor, de sua mágoa, de sua raiva pelo Senhor Domingo, mas, por mais esforço que empreendesse não conseguia lembrar-se do que lhe disse a amiga sobre tudo aquilo. Vinha à sua mente um presente que ele deveria abrir, que presente seria este?
Conseguia lembrar-se com clareza daquele último dia, conseguia lembrar-se do cavalo, de sua dor, de sua mágoa, de sua raiva pelo Senhor Domingo, mas, por mais esforço que empreendesse não conseguia lembrar-se do que lhe disse a amiga sobre tudo aquilo. Vinha à sua mente um presente que ele deveria abrir, que presente seria este?
Era uma tarde de inverno que começava a cair, em pouco tempo a escuridão estaria presente. Então o homem sentou-se sobre a copa de uma pequena árvore acompanhado de seu vira lata e não pensando em mais nada foi aos poucos relaxando... Depois de algum tempo ouvia o vento, e um pouco mais além passou a ouvir o canto dos passarinhos que estavam por ali, e então aos poucos foi sentindo dentro de si uma imensa paz, a paz de um menino que toda tarde subia um morro contente da vida, rodeado por bananeiras, roseiras e galinhas, e que lá no alto do morro ficava empoleirado como um canarinho da terra em uma diminuta árvore...
- Menino, o medo é o Carcereiro de sua própria prisão...
- Como assim Guaçatonga?
- O medo menino, fecha-se em si mesmo dentro de uma prisão mental muito escura, com a chave da cela em suas próprias mãos.
- Mas por que então Guaçatonga ele não pega a chave, abre a porta e vai embora?
- Porque o Carcereiro não deixa menino.
- Mas por que Guaçatonga?
- Porque o Carcereiro, por não conhecer, teme a liberdade.
- Desta forma Guaçatonga, será então eterna a prisão.
- O medo, o Carcereiro e a prisão são ilusões criadas pelo orgulho humano menino.
- E como então Guaçatonga, quebrar o círculo vicioso da ilusão?
- Somente o amor consegue promover a liberdade e quebrar a ilusão.
- Mas como o amor vai entrar na prisão Guaçatonga.
- Ele não vai entrar menino, ele já está lá dentro.
- Dentro da prisão Guaçatonga? Não compreendo.
- Menino, onde fica a semente da goiaba?
- Dentro da própria goiaba Guaçatonga.
- Então menino...
- Então Guaçatonga, vive dentro da goiaba um goiabal inteiro.
- Da mesma forma menino, a semente do amor já está dentro do homem que está dentro da prisão. E este amor precisará germinar para a vida.
- Mas Guaçatonga, como pode o amor crescer dentro de um homem preso dentro de uma prisão escura?
- Da mesma forma que as sementes crescem sob a terra menino, morrendo o invólucro externo nasce a essência.
- Que bonito Guaçatonga.
- O amor é como uma semente muito leve que cresce em todos os lugares, e é também como o vento, que assopra sua brisa de liberdade por todos os locais por onde passa, enchendo a vida de encanto e alegria.
- Guaçatonga, e se a prisão for muito, muito escura, e o homem no seu desespero interior não conseguir encontrar o amor em si mesmo, existirá ainda alguma outra forma de sair?
- Sim menino, existe ainda um último atalho.
- Como Guaçatonga, como?
- Todo homem trás dentro de si um menino, portanto se o homem preso em si mesmo conseguir identificá-lo e libertá-lo, este, com a pureza de sua alma dulcificará o coração do carcereiro, e desta maneira a prisão finalmente será aberta.
- Mas como Guaçatonga, um menino preso dentro de uma prisão mental com outros encarcerados pode, depois de tanto tempo sair de lá sem nenhuma revolta interior, libertando ainda quem o prendeu?
- Todo menino é uma semente de esperança e liberdade espalhada pelo vento, e estes meninos, menino, somente conhecem a bondade e a inocência.
- Acho que entendi Guaçatonga, o homem liberta o menino, o menino liberta o carcereiro, o carcereiro liberta o homem, e o homem, finalmente liberta os demais...
- Louvado seja menino, louvado seja... falou ainda a Guaçatonga.
O homem desperta e observa encantado que estava cochilando sob o pé de uma pequena Guaçatonga. Então, lá de cima de uma das irmãs da árvore de sua infância, desce um menino totalmente livre, que o abraça carinhosamente, e naquele instante radiante o homem redescobriu e libertou o menino em si mesmo. Sua emoção era muito grande, e ele não conseguia mesmo compreender como havia mantido por tão longo tempo cativo aquele menino dentro dele mesmo.
O menino sorri e pede ao homem que o aguarde, e então abre a porta de uma prisão muito escura, uma prisão mental, e diz com a voz cheia de ternura...
- Carcereiro, Carcereiro, acorde... Acorde Carcereiro, você está livre agora...
-Perdão por tê-lo mantido preso menino, perdão...
- Você nunca me prendeu Carcereiro, vá em paz meu irmão, creio que você vai gostar muito da liberdade.
O Carcereiro, antes de sair da prisão, radiante de felicidade, uma felicidade transbordante, cheio de sentimento de gratidão pelo menino, olha para um canto e observa lá um homem, e então seus olhos transbordam de lágrimas e seu coração enche-se de ternura...
- Homem, homem, desperte, desperte... A porta da cela está aberta. Perdão por tê-lo mantido cativo, eu, na minha ignorância era um cativo também... Você está livre agora de suas algemas mentais. Caminhe para a liberdade homem, caminhe para a liberdade...
O homem levanta e sai finalmente de sua prisão mental. Olha para fora, observa o azul do céu e o verde das árvores, sente o sopro do vento, ouve o canto dos pássaros e descobre que a liberdade é uma experiência extraordinária, então volta, e sentindo em si a mais profunda paz começa a libertar todos aqueles que ele havia prendido ao longo de tantos e tantos anos no seu cárcere mental...
- Perdão Senhor Domingo, eu não tinha o direito de prendê-lo, saia e vá em paz;
Meu Cavalo querido, perdão, saia e viva com alegria, verdes campos esperam por ti;
Senhor dos Muros, Senhor dos Muros, perdão... Não é pelo fato de gostar de horizontes que deveria impedi-lo de criar os seus muros. O Senhor está livre agora.
E assim, um por um, todos seus encarcerados mentais foram liberados, caia finalmente através da força de um menino a grande cidadela mental, e como um capitão em seu navio, o homem foi o último a abandonar sua própria prisão, reencontrando-se integralmente com o menino que o esperava do lado de fora da prisão.
Meu Cavalo querido, perdão, saia e viva com alegria, verdes campos esperam por ti;
Senhor dos Muros, Senhor dos Muros, perdão... Não é pelo fato de gostar de horizontes que deveria impedi-lo de criar os seus muros. O Senhor está livre agora.
E assim, um por um, todos seus encarcerados mentais foram liberados, caia finalmente através da força de um menino a grande cidadela mental, e como um capitão em seu navio, o homem foi o último a abandonar sua própria prisão, reencontrando-se integralmente com o menino que o esperava do lado de fora da prisão.
Contam os antigos que numa certa cidade existia um morro muito alto, repleto de um sem fim de árvores. Contam alguns que todas elas foram plantadas em livres dias de domingo, por um único menino que trazia sempre seus bolsos cheios de sementes, e estava sempre acompanhado por seu grande amigo, um cachorro vira lata.
Contam outros que estas mesmas árvores foram plantadas em manhãs de domingos, porém, por um homem com vários vira latas.
Como isto ocorreu a muitos anos atrás, outros ainda afirmavam que efetivamente era o homem quem plantava as árvores, acompanhado por alguns vira latas e um menino também. A única certeza comum era que naquela pequena floresta todos os caminhos eram livres e o horizonte podia sempre ser visto de qualquer lugar, pois não havia nenhum muro lá, e havia constantemente ali a presença de um menino que, encantado da vida, subia corriqueiramente nas pitangueiras, nas goiabeiras, nas mangueiras, nos jacarandás, nos ipês, nos enormes guapuruvus, onde com seus dedos quase tocava o céu, subia enfim, nas inúmeras árvores que viviam por ali.
Tudo aquilo era relativamente natural para aquelas pessoas, porém uma coisa os intrigavam... O que aquele menino fazia todo final de tarde empoleirado feito um passarinho numa das muitas Guaçatongas que cresciam por ali? Aquela dúvida sempre persistiu, porém ficou para todos e para sempre uma certeza: Naquela pequena floresta haviam poleiros suficientes para todos os passarinhos do céu, bem como para todos os meninos que habitaram, habitam e habitarão os corações de todos os homens de todos os tempos.
Contam outros que estas mesmas árvores foram plantadas em manhãs de domingos, porém, por um homem com vários vira latas.
Como isto ocorreu a muitos anos atrás, outros ainda afirmavam que efetivamente era o homem quem plantava as árvores, acompanhado por alguns vira latas e um menino também. A única certeza comum era que naquela pequena floresta todos os caminhos eram livres e o horizonte podia sempre ser visto de qualquer lugar, pois não havia nenhum muro lá, e havia constantemente ali a presença de um menino que, encantado da vida, subia corriqueiramente nas pitangueiras, nas goiabeiras, nas mangueiras, nos jacarandás, nos ipês, nos enormes guapuruvus, onde com seus dedos quase tocava o céu, subia enfim, nas inúmeras árvores que viviam por ali.
Tudo aquilo era relativamente natural para aquelas pessoas, porém uma coisa os intrigavam... O que aquele menino fazia todo final de tarde empoleirado feito um passarinho numa das muitas Guaçatongas que cresciam por ali? Aquela dúvida sempre persistiu, porém ficou para todos e para sempre uma certeza: Naquela pequena floresta haviam poleiros suficientes para todos os passarinhos do céu, bem como para todos os meninos que habitaram, habitam e habitarão os corações de todos os homens de todos os tempos.
- Guaçatonga, irmã amada, aprendi finalmente a conjugar o verbo florestar....
eu floresto
tu florestas
ele floresta
nós florestamos
vós florestais
eles florestam
- Desde o princípio menino, Nunca tive dúvidas... Respondeu a Guaçatonga.
-
Lindo e ao mesmo tempo muito triste
ResponderExcluirSerá que alguém parar o Senhor dos Muros?
Só reflorestando!