O Ipê e o Vento
Ele foi plantado lá em 1997, faria 21 anos em outubro próximo, estava alto, com mais de doze metros de altura, em plena juventude. Para quem chegava na casa da professora, ficava à direita do portão, e invariavelmente e sem palavras, dava as boas vindas ao visitante, e muitas vezes, no final do inverno e início da primavera, oferecia também de suas lindas flores amarelas. Quando o visitante ia embora ele ficava à esquerda do portão, e também sem palavras, - as árvores não falam, - também desejava tudo de bom, algo como assim: Vai com Deus meu amigo, vai com Deus...
Foi muito amado aquele ipê, contam que sua semente foi colhida lá no interior de São Paulo, em uma certa cidade das terras rasgadas, sobre um lindo gramado. Contam também que o ipê lá daquelas terras paulistas era também muito amado e muito belo, e que provavelmente ainda cresce por lá, beirando o muro, próximo à copa frondosa de uma majestosa sibipiruna.
E com quase vinte e um anos de idade o ipê continuava crescendo, já estava mais alto do que a casa, já estava mais alto do que o poste da mesma casa, e em pouco tempo estaria mesmo mais alto que o poste da própria rua. Qual seria a razão daquele crescimento constante, ele já havia atingido a altura média para os da sua espécie, havia muita luz natural ao seu redor, mas continuava crescendo, crescendo...
Cresceu tanto o ipê, e lá da sua altura de árvore observou o quarto, e como ele já desconfiava, o quarto estava vazio, a professora não estava lá, e ficou tão triste o ipê, sua dor foi tanta, quase beirou a insanidade, e movido por esta dor resolveu continuar crescendo, precisava muito atingir o céu a fim de encontrar a sua amiga por lá.
O tempo foi passando, um dia veio o verão, e com o verão a chuva, e com a chuva o vento... E naquele dia de janeiro, tomado da mais profunda saudade, ciente de que jamais atingiria o céu por seus próprios meios, o ipê fez um pedido ao seu amigo...
- Irmão vento, estou com saudades da professora, por gentileza, leve-me para as alturas, leve-me para o céu...
- Mas ipê, respondeu o vento... Seu lugar é ai, suas raízes estão no chão, você não é um pássaro, não pode voar.
- Escuta irmão vento, escuta... Minha amiga não está mais aqui, agora eu sei, e sei também que ela voou para um local muito bonito, para onde voa todas as pessoas de bem, e sei também irmão vento, que neste local tão distante as árvores também crescem e florescem, e ainda sei que chegou a minha hora de ir para lá, eu sei de tudo isto irmão vento, eu sei...
Ventou como nunca naquele dia, e no final da tarde e da tempestade haviam fios de luz e telefonia espalhados pelo chão, muro danificado, poste quebrado, defesa civil em ação, lamentos, e prejuízos, e à direita do portão da casa da professora um ipê caído no chão.
Antes do vento e do verão, ainda na primavera, já havia passado por ali o agricultor, que naquele dia coletou e semeou inúmeras sementes daquela árvore tão cara para ele, e como é natural, pela lei suprema do amor, estas germinaram, e muitos novos ipês deram ao mundo o ar de sua graça.
Tudo isto o vento me relatou, e me contou também que o agricultor morava no alto de um morro, e que lá naquelas alturas ele plantou algumas mudas daquele ipê, plantou cheio de alegria e gratidão, plantou no lugar mais alto que ele encontrou, longe de fios e muros, plantou bem pertinho do céu, a fim de que a árvore pudesse ficar um pouco mais próxima da amiga que ele tanto amou, a fim de que a professora pudesse também, lá de cima, lá do céu, lá onde vivem os simples e justos, alegrar-se também com a eterna presença de seu amigo, o ipê amarelo.
Coisas do vento, coisas da vida, coisas do amor, coisas do agricultor, coisas de Deus...
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