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| Embauba Preta, dentro da Vila |
Naquele último dia na rua Ibituruna, o agricultor não sabia mesmo onde ia morar, estava inquieto, um pouco preocupado com a situação. Ele tinha a certeza que iria para Copacabana, para o apartamento de um conhecido, chegou mesmo a ir até lá, estava tudo certo. O local era muito urbano,urbano demais, mas o agricultor precisava de moradia, e certamente se adaptaria à nova situação. Porém, tempos depois, veio a saber que não seria possível a mudança, seus colegas, os locatários iriam desocupar o imóvel, e então esta possibilidade de teto foi por água abaixo. Havia ainda a possibilidade de um imóvel em Botafogo, mas o processo estava ainda em andamento, de forma que, saindo do apartamento da rua Ibituruna, o agricultor procurou por um hotel simples onde pudesse passar alguns dias, até que uma solução surgisse, transformando se então em um um sem teto temporário. E o hotel simples, muito simples, talvez nas palavras de sua companheira, uma espelunca, foi encontrado lá pelas bandas da Praça Tiradentes, como era por poucos dias, achava o agricultor, dava para ficar por lá, e com a vantagem da proximidade com o trabalho, e de um valor bem em conta, um achado, uma beleza. Ele reservou um quarto numa sexta feira, e foi feliz para casa no interior passar o final de semana. E no domingo seguinte, chegando ao hotel, ficou sabendo que não havia nenhuma reserva, o responsável não havia anotado nada em lugar nenhum, e não havia mais nenhum quarto disponível, e o agricultor sentiu um misto de alívio e preocupação e saiu pela rua da Carioca afora, rumo ao metrô, onze horas da noite à procura de um refúgio, se todos os hotéis da cidade estivessem lotados, ele provavelmente teria que dormir quem sabe, não no Copacabana palace, mas provavelmente sob a copa de uma daquelas árvores da cidade que ele tanto amava, ou ainda perambular a noite inteira à procura de um abrigo. E então ele se lembrou de um antigo hotel na Rua Ferreira Viana, no Catete e foi para lá, e chegando na estação do Metrô e subindo as escadas, pediu ao seu Deus que o ajudasse a resolver aquela questão, resolveu relaxar e entregar o comando para o pessoal de Cima. Havia vaga no hotel, depois de 15 anos ele havia retornado, já era um hóspede conhecido, o porteiro ainda se lembrava dele, tudo era muito simples, muito limpo, muito honesto, muito bom. E por ali ele foi ficando por alguns dias, algumas semanas, enfim, ficou por todo um mês, até que o imóvel no bairro de Botafogo apareceu,e ele foi fazer uma visita de reconhecimento, como seria este local, como seria, pensava o agricultor.... Em Botafogo, existe uma encosta arborizada, e no sopé desta uma vila com cento e dez anos de idade, com poucas casas, protegidas da agitação e barulho da cidade. Entrando na vila, tem se a impressão de uma volta no tempo, parece uma cidadezinha do interior, tem banco na rua, varandas com flores, azulejos portugueses, pássaros, cachorros, sossego, tem tudo, faltou somente o coreto, e a casa é agradável, simples, gostosa de se viver. O agricultor agora mora lá, e todos os dias, quando sai e chega na vila e na casa, ele lembra do pedido e na entrega feita na escadaria do metrô do Catete, e agradece com alegria ao seu Deus, pelo presente carinhosamente embalado, sob o céu de Botafogo, bem próximo da enseada.
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